Crônicas de João Soares da Fonseca

 A Mulher Que Não Virou Lagarta

Com a partida de mamãe a 15 de abril, com quase 91 anos, em Vila Velha (ES), desembarco órfão no primeiro Dia das Mães sem ela. É uma sensação triste, porque todo ano ligava para ela nesse dia. Este ano não tive para quem ligar.


A inspiração de sua vida não deixa de comportar alguns mistérios. Como é que alguém sofre tanto, desde os três anos de idade, e ainda assim consegue não cultivar a amargura?


Sua via-crúcis começou com a separação dos pais em 1936. Cada uma das seis filhas do casal foi para uma casa diferente e distante. Genita foi morar com tios italianos, que por sua vez, não se destacavam exatamente pela demonstração de afeto. Privada de carinho, educação (“menina-mulher não precisa aprender a ler, pra quê? Pra escrever bilhete pra namorado?”) e até de comida, a menina às vezes se levantava com fome de madrugada e ia, pé ante pé, procurar comida. Os sinais de maus-tratos eram visíveis em seu corpo, como aquela cicatriz no alto da cabeça, causada por um tição que lhe arremessaram sem dó. Infância sofrida assim, com cenas tão dramáticas, daria um filme de muito chorar. As memórias que Genita conservou dos 16 anos em que morou com os tios e os 11 primos homens e uma prima não eram das mais felizes.

Todo esse histórico formaria o pano de fundo perfeito para se produzir um ente revoltado com a vida, com as pessoas e com Deus.
Nada disso aconteceu, porém. Nela, as tribulações cederam lugar a um espírito alegre e gozador (na acepção carioca do termo). Certamente a entrada do evangelho em sua vida aos 31 anos ajudou-a a administrar melhor os contraditórios sentimentos deixados por uma criação abrutalhada e abusiva.

A sobrevivência de seu senso de humor é, para mim, mais um milagre do céu. Lembro de mamãe, na minha infância, reunida com as vizinhas, e todas rindo às escâncaras com o que ela falava. Ela era, como se diz em inglês, a “vida da festa”. Um dia, quando lhe telefonei desde Cascadura, Rio, e perguntei como estava a saúde, ela respondeu que havia ido ao médico, e que ele recomendara uma dieta mais saudável, menos massa e mais legumes. “Coma folha”, resumia o médico. E ela rebatia: “Folha, folha… se eu ficar comendo folha desse jeito, vou acabar virando uma lagarta!”.

Mamãe era instinto puro. E o instinto lhe dava respostas as mais espetaculares para situações as mais complicadas. Um dia, contei a ela um episódio incômodo em que, numa assembleia da Convenção Batista Brasileira, realizada no Sul do Brasil, fui procurado por alguém dizendo-se obreiro no interior de um Estado do Nordeste. Ficou evidente, pelo rumo da prosa, que ele queria algum dinheiro. Abordou-me piedoso: “Foi pela fé que vim a esta convenção; preciso de ajuda para voltar”. Mamãe ouviu a história e replicou no ato: “Pois se para lá foi pela fé, que voltasse também pela fé!”.

Mesmo analfabeta, sua comunicação sempre foi interessante. A ela bem se ajusta uma frase de Gabriel García Marquez sobre um dos personagens de Cem Anos de Solidão: “…alinhavava uma conversa colorida”. Dela ouvi expressões que nunca mais ouvi em lugar algum, como “parece um esquife em pé”. Outras, que mesmo conhecidas vão ficando cada vez mais raras: “quem fala muito dá bom dia a cavalo”; “ou você melhora ou marca o dia” (repreendendo nossas desobediências filiais), “saiu daqui vendendo azeite (= furioso)”; “pintar a sapequeira” (equivalente ao popular “pintar o sete”). Engraçado mesmo era um ditado usado para descrever situações em que alguns espertalhões querem tirar partido da bondade alheia: “Defunto quando acha quem carrega… balança!”. O que ainda hoje me fascina é que tais expressões eram usadas no contexto certo, e por uma pessoa analfabeta. A capacidade que mamãe tinha de guardar dados, datas, nomes, situações… para uma pessoa sem o dote das letras, repito, é algo absolutamente miraculoso.

Desconhecia a preguiça. Cuidava da casa, do marido e dos quatro meninos, e ainda trabalhava fora, sem reclamar da vida. Até o fim viveu otimista, recusando-se o papel de lagarta. Sua ausência doerá sempre, não apenas nos segundos domingos de maio. Mas seu exemplo de alguém que escolheu dar pontapé na amargura inspirará a quantos com ela conviveram.


O Pássaro da Rua Rachel Ann

Desde junho de 2022, resido na Rua Rachel Ann, no sossego da pequenina cidade de Walton, Kentucky, de menos de quatro mil habitantes. Na casa do outro lado da rua, o vizinho desperdiça dinheiro, mantendo um automóvel, um Honda Fit, que jamais vi ser ligado nem sair da entrada da casa (driveway). É praxe na América as pessoas usarem a garagem como esconderijo de todo tipo de bagulho, menos para guardar o carro, que fica do lado de fora. O Honda Fit do vizinho pega sol, chuva, neve, sereno, além de servir de toalete aos passarinhos.

O que mais me chama a atenção, porém, é um pássaro, que o tempo todo pousa sobre o retrovisor do lado do motorista e fica desesperadamente dando bicadas no vidro. Tal é a violência dos ataques, que ouço as pancadas, mesmo do outro lado da rua. Meu vasto desconhecimento do universo ornitológico me impede de afirmar se é o mesmo indivíduo que faz isso todo santo dia desde junho de 2022 ou se há algum tipo de revezamento entre os da mesma espécie.

Seja o que for, o pássaro da Rua Rachel Ann me intriga pela persistência com que combate o “inimigo” que só ele enxerga. Ao ver sua imagem projetada no vidro, o pássaro “interpreta” isso como sendo alguém que lhe quer mal e que, portanto, é imperativo eliminar. Só isso é que explicaria a teimosa fúria com que se lança contra o vidro.

As várias vezes em que a cena se repete me fazem lembrar de alguns indivíduos da nossa espécie que, ao ver sua imagem projetada em algum espelho da vida, pensam tratar-se de um inimigo perigoso. É quando um de nós não apenas rejeita o que vê mas faz a leitura de que o que vê é um inimigo. Equivale a uma declaração de guerra contra a própria identidade. É perigoso não se reconhecer e iniciar um conflito contra si mesmo. Uma percepção patológica de si pode causar danos imensos ao bico de cada um, tornando a vida uma viagem infeliz, infrutífera e infinitamente dolorosa. O desafio é ser o que hoje os analistas chamam de “a melhor versão de si mesmo”. Ao responder a uma pergunta de um fariseu maldoso sobre qual seria o maior mandamento, Jesus respondeu, citando o Levítico (19.18), que cada um “ame o seu próximo como a si mesmo” (Mateus 22.39). A cláusula como a si mesmo supõe que sejamos portadores de uma autoimagem saudável, uma autopercepção equilibrada, a partir da qual veremos o outro, não como inimigo, mas como alguém a ser amado. Assim como cuidamos de nós, cuidaremos também do outro. Ele e eu somos ambos portadores da imagem do Deus Vivo. Do mesmo modo como me esforço para superar minhas deficiências, farei o mesmo para tentar resolver os problemas que atribulam os que me cercam.

O pássaro da Rua Rachel Ann não consegue compreender que não se trata de um inimigo. Não entende que o que ele vê é apenas uma projeção de sua própria silhueta. Num pássaro se dá o desconto da irracionalidade, mas dos humanos se espera algo mais inteligente, mais altruísta e menos animal.


Bênçãos de Quatro Patas


O dia 4 de outubro foi proclamado em Viena, em 1929, o Dia Mundial de Proteção dos Animais. É comemorado nesta data por ser o dia da morte de Francisco de Assis, considerado amigo e protetor deles.


O homem, criado por Deus, recebeu do Criador a coroa do comando sobre o restante da criação (Gênesis 1.27; Salmo 8.6,7), inclusive os animais domésticos. Para que servem? Há neles alguma utilidade designada pelo Criador?


Um estudo datado de 1980 e desenvolvido junto a pacientes que voltavam para casa depois de terem tido um ataque cardíaco, mostrou que apenas 6% dos que possuíam animais domésticos morreram em seguida, enquanto 44% dos que não os tinham tiveram uma recaída fatal.

Outro estudo, de dois anos depois, revelou que animais de estimação ajudam a reduzir a pressão arterial.


Outra pesquisa, esta de 1990, mostrou que pacientes da Terceira Idade, donos de animais domésticos, foram poucas vezes ao médico. Já os que não possuíam precisaram ir mais vezes.


Diz-se que os bichos de estimação fazem aumentar a sensação de bem-estar em adultos de qualquer idade. Além de comunicar uma sensação de conforto e segurança, a presença de um animal ainda combate o estresse. Os bichos podem ser especialmente importantes para os idosos que enfrentam enfermidade, separação dos familiares ou luto.


Os psicólogos costumam recomendar um animal para crianças com problemas de relacionamento. No Museu do Inconsciente, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, conta-se a história de um paciente psiquiátrico que se recusava a responder a qualquer estímulo humano. Ficou assim semanas e mais semanas, trancafiado em si. Até o dia em que, notou a Dra. Nise da Silveira, entrou um cão e ficou perto do paciente. Este levantou a cabeça e começou a se relacionar novamente com o mundo à sua volta. O cão foi imediatamente “contratado” pela famosa psiquiatra para ajudar na terapia.

E não é que Deus pensou em tudo? Os bichos que Ele criou nos ajudam a ter qualidade de vida! Quem diria?!



Está me Ouvindo?

O ouvido humano, diz a ciência, pode tolerar até 90 decibéis sem muito prejuízo. Se você não tem ideia do que isso representa, basta saber que uma máquina de lavar, funcionando, produz ruído equivalente a cerca de 60 decibéis.

Parece que nossa sociedade zomba cada vez mais dos limites estabelecidos pela própria natureza. É o vizinho, que põe o som para a rua inteira ouvir; é a festa que vai madrugada a dentro no mais alto volume; é o centro de macumba; é a escola de samba...

Dizemos que no Brasil não há tremor de terra... Isto é, não há, até que passe pela gente o carro incrementado do playboy com aquele som nas alturas.

Infelizmente, de uns tempos para cá, um novo item deve ser acrescentado a essa lista infeliz: são algumas igrejas, que insistem em produzir mais barulho do que calor espiritual. Há alguns anos, uma igreja batista em nosso país teve que gastar dinheiro que não tinha para revestir as paredes de seu templo de um certo tipo de material que impedisse o som de alcançar a vizinhança. E o fez porque foi obrigada pela justiça.

Perseguição religiosa à parte, seria bom que déssemos bom testemunho aos vizinhos, respeitando-lhes o direito ao silêncio. Uma pesquisa nos Estados Unidos revelou que 40% dos jovens de 20 anos que hoje entram para as universidades de lá já estão sofrendo de deficiência auditiva, que é doença irreversível. Bruce Springsteen, grande astro do rock, em 1997 ficou totalmente surdo de um ouvido e perdendo rapidamente o outro.

Talvez você já tenha se perguntado como é que o ilustre passageiro ao seu lado, mesmo usando fone de ouvido, aguenta ouvir uma música cuja estridência você também está ouvindo. É hora de começarmos a questionar se temos sido bons mordomos de tudo o que o Senhor nos deu. E por que não cuidar melhor da audição? Já que é sensato preservar o verde, a fauna, a flora, que tal preservar também o precioso privilégio de ouvir?


Competência e Humildade

Atendendo ao apelo do Senhor, Gideão foi combater os midianitas, os sugadores da economia israelita. Para isso Gideão convocou um exército. É que ele gostava de gente, “muita gente” (Juízes 7.2). Tanto gostava de gente que “Gideão teve setenta filhos” (Juízes 8.30). Imagine então o tamanho do seu exército! Reuniu 32 mil soldados (Juízes 7.3). Com tanta gente, a vitória seria esmagadora.

Do ponto de vista militar, Gideão estava certo.

Estranhamente, porém, o Senhor mandou que Gideão despedisse uma boa parte daquela tropa. Para que não houvesse depois o argumento de que a vitória foi graças à força de tantos braços (Juízes 7.2).

Inicia-se, pois, assim, a operação “redução de contingente”. Dispensam-se 22 mil homens. 22 mil pediram o boné e deram baixa quando ouviram: “Quem for medroso e tímido volte” (Juízes 7.3). A tropa caiu para 10 mil homens. Que bom que desistiram! Há momentos na vida de um povo em que só a coragem é que pode mudar o rumo de sua história.

Finalmente, o exército fechou com apenas... 300 soldados. Era menos de 1% dos alistados inicialmente. É que Deus prefere trabalhar com uma minoria de crentes do que com uma multidão de incrédulos. Há mais poder numa minoria com Deus do que numa maioria prepotente. No mundo hoje, nós também somos uma minoria vitoriosa. Como disse Jesus: “Não temas, ó pequeno rebanho! Porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12.32). 

Depois de vitorioso, Gideão deu outra prova de humildade. Multidões se acotovelaram diante de sua casa pedindo que ele concordasse em ser coroado o rei de Israel. A popularidade de Gideão estava batendo recordes históricos. “Gideão, porém, lhes respondeu: Nem eu dominarei sobre vós, nem meu filho, mas o Senhor sobre vós dominará” (Juízes 8.23). Ele não caiu nem mesmo na tentação de indicar o seu sucessor. Gideão desviou o foco de sua pessoa para a pessoa de Deus.

Gostaria de saber por onde anda essa humildade perdida hoje?



A Tragédia da Descrença


Stefan Zweig (1881-1942) foi um escritor judeu austríaco, bem-sucedido como intelectual, traduzido para 56 idiomas, admirado pelo cineasta Orson Welles, que o chamava de “escritor sublime”. A ele se deve a expressão “Brasil, país do futuro”, já que, enquanto aqui viveu, escreveu um livro com esse título.

Em 1933, a tranquilidade austríaca de Zweig em seu país chegou ao fim. Certa manhã, ele foi acordado pela polícia nazista. Por divergir do modo nazista de ser, fugiu para o Brasil, aqui chegando em 1940.

Gostava do Brasil. Gostava muito de Petrópolis, que chamava de “paraíso”. Foi por isso que o jornalista Alberto Dines (1932-2018) deu ao livro que escreveu sobre ele em 1981 o título “Morte no Paraíso”. Por aqui, vivia cercado de gente da alta-roda social. Manteve correspondência com Sigmund Freud. Dines diz que foi Zweig quem “introduziu Freud em nosso país”. É trágica a experiência de Zweig porque ele era muito infeliz, chegando a cometer suicídio. Dines diz dele: “Zweig vê o mundo e não se encontra. Tinha perdido a língua. Adorava o Brasil, mas tinha noção de que tinha escolhido o lugar errado para viver”. Pergunto parenteticamente se ele tivesse fugido para outro país, teria achado aí a felicidade? Será que a felicidade de Zweig ficou na Áustria? Estaria na América? Onde? Menos de um mês antes do suicídio, ele escreveu uma carta a um amigo em que lamentava: “...tudo o que faço é sem entusiasmo – eu me contento em trabalhar para não afundar na melancolia ou na loucura”. Ele e a mulher Charlotte se suicidaram a 22 de fevereiro de 1942. Escreveu 13 cartas antes de morrer, “desculpando-se pelo suicídio”. Cumpria assim um roteiro cruel, bem definido aliás pelo filósofo existencialista Albert Camus, segundo quem, no cenário da ausência de Deus, a única opção seria o suicídio. Paulo disse que antes de crermos em Cristo, estávamos “sem esperança e sem Deus no mundo” (Efésios 2.11-12). Há tragédia maior?



Porcos Detestam Pérolas

Era uma festa de aniversário de criança, realizada no salão de festas do condomínio.

Mesmo sendo festa de criança, o cheiro forte do álcool sentia-se de longe. Nuvens de fumaça de cigarro tornavam o ar irrespirável. As pessoas literalmente gritavam umas às outras, já que o som ensurdecedor proibia a conversa decente e educada.

De repente, alguém abaixa o volume do som e grita pedindo silêncio. Um bêbado rosna desorientado: “O que aconteceu?” É que o pastor de um parente distante da criança está presente e foi convidado a falar. Sem nenhuma atmosfera de culto, sem nenhum sentimento de adoração ou mesmo sem nenhuma atitude de reverência, o pastor lê um versículo e tece breve comentário. Era visível o deboche dos bêbados ou semibêbados.

Jesus estava certo: Porcos detestam pérolas. A chocante figura que o Mestre usou está no sermão do Monte: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas...” (Mateus 7.6). Cães e porcos são os dois representantes do mundo animal, citados por Jesus. Os dois são objeto de desprezo por parte dos orientais, em geral, e dos judeus, em particular. O uso da palavra “cão”, por exemplo, como algo desprezível é evidente quando os judeus consideram cães os gentios, ou seja, os que não são judeus. Segundo John Broadus, é assim que os muçulmanos consideram os cristãos.

Lançar pérolas aos porcos é a maior das tolices. Seria tentar o casamento de dois extremos que não se conciliam: a pérola, por ser exemplo de refinamento, e a porca, paradigma da imundície. No rico tesouro da literatura judaica, pérola é sinônimo de um bom pensamento, de uma ideia excelente. Sem dúvida, as verdades do Evangelho são preciosas como as pérolas. Foi Jesus mesmo quem elaborou uma parábola associando o reino de Deus a uma pérola de valor incalculável (Mateus 13.45,46). Lançá-la a quem não a valoriza é uma blasfêmia, porque porcos detestam pérolas.

Chá de Freud

Como toda palavra alemã, Schadenfreude é difícil de escrever, e mais ainda de pronunciar. Parece um trava-língua. Por isso achei que se você se lembrar de alguma coisa parecida com “chá de Freud”, não terá dificuldade.

Mesmo sendo uma palavra alemã, Schadenfreude surge em bons autores da literatura inglesa. E o que significa? Hamlyn, meu dicionário de bolso de alemão, define que “chá” é esse: “Schadenfreude – subst. fem.– prazer malicioso provocado pela infelicidade dos outros”. A palavra vem do verbo schaden (ferir), mais o substantivo Freude (alegria). Ou seja, é aquele sentimento complicado, contraditório e confuso de celebrar a tragédia alheia. Percebeu agora por que este “chá” está sendo servido hoje aqui? Chá de Freud, ou o sério Schadenfreude, significa que alguém está festejando o fracasso do outro. É um sentimento maligno, implicando falta de compaixão perante o tombo alheio; em vez de estender a mão, empurramos para baixo mais ainda. Em vez de dizer “que tristeza!”, declamamos “bem feito!”. Em vez de orar pelo caído, orgulhamo-nos de estarmos em pé. O “chá” de Freud nos faz soltar fogos diante da decadência de um concorrente. Quem bebe desse “chá” tem nos olhos um brilho estranho, um reflexo de chamas que não podem provir de outro lugar senão o inferno. Em vez de se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram, eles se alegram porque alguém chora. Não é perverso? Ah, mas isso não acontece, dirá alguém. Ninguém seria tão mal assim. Não? Então ouça uma das vítimas, Davi, falando de cadeira já que aconteceu com ele: “Envergonhem-se e juntamente sejam cobertos de vexame os que se alegram com o meu mal” (Salmo 35.26). Uma característica surpreendente do amor ágape é justamente a atitude contrária ao “chá” de Freud: “o amor... não se alegra com a injustiça” (1Coríntios 13.6). Evite o “chá” de Freud. Quem bebe desse “chá” boa coisa não terá: “...o que se alegra da calamidade não ficará impune” (Provérbios 17.5).



Amnésia e Nostalgia

Um ancião estava perdendo a memória. Foi ao médico. O médico mostrou a possível solução, uma cirurgia, mas alertou para um risco: a cirurgia é delicada, e você pode ficar cego. O que prefere?

O ancião pensou e respondeu: “Prefiro perder a memória”. Curioso, o médico quis saber por quê. “Porque é melhor ter olhos abertos para ver o futuro do que só memória para lembrar o passado”.

A sabedoria, sem dúvida, falou pela boca do ancião.

O passado não pode ser impunemente desprezado. A amnésia é danosa para as nossas relações. Não podemos esquecer, por exemplo, os amigos com que Deus nos privilegiou, os irmãos que Ele nos deu na caminhada da vida, os valores com que se nutriram nossas almas, os sonhos que nos inspiraram a lutar, e até mesmo fracassos que por um tempo nos abateram e humilharam.

Passado é patrimônio, e nosso primeiro dever para com o patrimônio é conservar. O segundo é ampliar. 

Ocorre, porém, que nem só de passado vive o homem. A nostalgia é bom sentimento, mas se for mais que isso e se tornar norma de vida, então passa a ser patológica. Vira “nostalgite”. Faz lembrar aquela figura ridícula, referida certa vez por Roberto Campos, numa de suas crônicas, de alguém que insiste em dirigir um automóvel com os olhos no retrovisor. O passado pode nos servir de referência, de inspiração e até de alerta, mas nunca de roteiro. O apego doentio ao que passou inibe iniciativas para o futuro. Aí o passado deixa de ser aliado para se metamorfosear em inimigo. Quando surgiu o cinema falado, muitos artistas do cinema mudo entraram em pânico, supondo que sua carreira se encerraria. Muitos deles simplesmente não aceitavam um ator falando. Contam que o filósofo Karl Popper ganhou uma máquina de escrever, que nunca aprendeu a usar: morreu escrevendo a mão. O pastor Reis Pereira, editor de O Jornal Batista, me disse, em meados da década de 80, que ganhara um computador de sua neta: “Nem tirei da caixa”.

Valorizemos o passado, sim, mas de olhos no futuro (Filipenses 3.13-14).



À Prova de Esquilo?


Talvez haja, na América do Norte, mais esquilos do que gente. Pois esses bichinhos estão por toda parte. São bonitinhos, mas também causam muitos prejuízos. Gostam, por exemplo, de roubar a comida de passarinho que as pessoas colocam no chamado “alimentador de pássaros” (“bird feeder”).

Esse alimentador é um cilindro feito de tela. O pássaro pousa nele, alimenta-se e vai embora.

Muita gente por aqui mantém um “alimentador de pássaros” no quintal, só para ficar admirando os passarinhos em festa.

Um homem comprou um “alimentador de pássaros”, cujo anúncio dizia que aquele produto era “à prova de esquilo”. Mas logo o homem descobriu que os esquilos são mais inteligentes do que se pensa. Tentou de tudo para afastar os bichinhos, e finalmente desistiu.

Frustradíssimo, voltou ao comerciante: “Isso não funciona. Não é à prova de esquilo coisa nenhuma”.

O comerciante devolveu-lhe o dinheiro, dizendo: “Posso ser sincero? Não existe tal coisa como alimentador de pássaros à prova de esquilo; simplesmente não existe”.

O freguês rebateu: “Mas como é que nós, sendo tão inteligentes ao ponto de termos ido à lua, não conseguimos criar um alimentador de pássaros à prova de esquilo?”

O argumento do comerciante é que é interessante: “Meu amigo, vou lhe dizer por que nunca haverá um alimentador de pássaros totalmente à prova de esquilo. E dou exemplo: quanto tempo você gasta, por dia, tentando descobrir uma maneira de manter os esquilos longe de seu alimentador de pássaros?”

O cliente respondeu: “Ah, sei lá, uns cinco ou dez minutos no máximo”.

E o comerciante: “Está vendo? E quanto tempo os esquilos ficam tentando roubar o alpiste?”

Os dois riram, concordando que os esquilos passam o tempo todo tentando a façanha.

O foco sempre ofuscará a inteligência. Mesmo um animal com um cérebro do tamanho de uma ervilha pode usar o poder do foco e suplantar os esforços até dos homens mais inteligentes. Paulo disse: “Prossigo para o alvo” (Filipenses 3.14). Cristo era seu foco. O foco é o segredo da vitória.



O Espetaqueiro

Nem Laudelino Freire, nem Aurélio, nem Houaiss, ninguém registrou a palavra. Portanto, não adianta procurar no dicionário o que seja “espetaqueiro”.

Antenor Nascentes classificou as variações do português falado no Brasil em seis subfalares. O mineiro é um deles, compreendendo os Estados de Minas (com exceção do Sul de Minas, que tem sua dicção própria), o Espírito Santo e o Norte-Fluminense.

Espetaqueiro é, pois, um “mineirismo” para “espetaculoso”, que o Aurélio, agora sim, registra:

“1. Que dá muito na vista; espetacular. 2. Ostentoso, aparatoso, pomposo. 3. Que é dado a espetáculos, a cenas ridículas e/ou escandalosas; espalhafatoso”.

crentes espetaqueiros. Sempre houve. São aqueles que se orgulham de suas vigílias e jejuns. Que fazem questão de mostrar os joelhos marcados pelas suas muitas orações. Jesus estava se referindo a eles quando falou de alguém que dá esmolas ou contribuições e exige que se toquem trombetas em sua homenagem (Mateus 6.1-2). O espetaqueiro adora trombetas.

igrejas espetaqueiras. São as que caem na tentação de ostentar. Perdem o sentido de missão, de agência do Reino de Deus, para ser uma agência de turismo, um centro cultural, um clube social, uma casa de shows, um supermercado a distribuir graças e até uma hasta a leiloar bênçãos.

pastores espetaqueiros. A proclamação do próprio mérito é parte de sua retórica. Se fazem uma visita, anunciam-no aos quatro cantos. Três conversões transformam-se em trinta. Eles plantam, eles regam, eles colhem, esquecidos de que é Deus quem dá o crescimento. Deles disse Spurgeon: “Há muita gente que não mata um rato sem copiosa publicidade. Sansão matou um leão e nada disse sobre sua proeza. Fale mais a respeito do que o Senhor tem feito por você, e menos do que você tem feito por ele”. Os fanfarrões da fé “já receberam o seu galardão” (Mateus 6.2,5,16). Sejam nossas vidas palco onde resplandeça apenas e tão somente a glória de Deus!


Crendo Mesmo Sem Evidências

No século 19, o inglês Allen Gardiner (1794-1851) trocou uma carreira vitoriosa junto à Marinha Real, onde era capitão, pela de missionário na Terra do Fogo, extremo Sul da Argentina, mais perto da Antártica do que de nós. Levou consigo seis voluntários. Na embarcação, havia suprimento para uns seis meses.

Ferocíssimos, os índios da região os expulsaram. O grupo saiu para o mar, refugiou-se em Spanish Harbor e fez contatos com a Inglaterra pedindo mais suprimentos. Mas os suprimentos nunca chegavam. Um por um, os companheiros de Gardiner foram morrendo, e ele morreu por último. Mas em seu diário, no dia 6 de setembro de 1851, Gardiner escreveu: “Grandes e maravilhosas são as benevolências de meu gracioso Deus para comigo. Não sinto fome nem sede, embora esteja há cinco dias sem comida”. Por causa desse último registro no diário, “acredita-se que Gardiner, o último sobrevivente, morreu em 6 de setembro de 1851” (https://en.wikipedia.org/wiki/Allen_Francis_Gardiner – acesso em 11-11-2023).

O navio com o suprimento solicitado só chegou ao seu destino, quatro meses depois, encontrando apenas os cadáveres. Além dos cadáveres, porém, os tripulantes do navio que chegou tarde demais também encontraram e preservaram o diário de Allen Gardiner.

O testemunho de Gardiner me deixa intrigado: como é que alguém está morrendo de fome e ainda assim chama Deus de “gracioso”? Como é que diante da morte iminente, em circunstâncias as mais adversas, alguém pode dizer que as benevolências de Deus são “grandes e maravilhosas”? De onde procede essa fé teimosa e perseverante?

A resposta me parece simples: depende do tipo de cristianismo que se está vivendo. Prevalece hoje um clone do cristianismo, que é superficial e puramente interessado em coisas. É uma devoção em que o devoto se aproxima de Deus para explorá-lo, para pedir, para mendigar, para barganhar, às vezes para exigir bênçãos materiais. Isso poderia até paradoxalmente ser chamado materialismo religioso.

Há, porém, uma outra religião: a que faz o fiel se aproximar de Deus, com ou sem bênçãos. Para esses, Deus em si já é o bem supremo, a bênção maior. Eles se alegram em Deus, juntando suas vozes à de Habacuque: “Ainda que as figueiras não produzam frutas, e as parreiras não deem uvas; ainda que não haja azeitonas para apanhar nem trigo para colher; ainda que não haja mais ovelhas nos campos nem gado nos currais, mesmo assim eu darei graças ao Senhor...” (Habacuque 3.17,18 – NTLH).

Estas palavras de Habacuque formam uma profissão de fé das mais raras e sublimes. Como quem diz: Se Deus me encharcar de bênçãos, eu o louvarei. Se Ele me privar delas, eu o louvarei mesmo assim. O Filho de Deus deixou claro que é “apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram” (Mateus 7.14).

Não se envergonhe, querido leitor, de pertencer a essa minoria. É com essa constância que você e eu temos servido ao Senhor?



Quem é Mané?

Ele é senegalês, da desconhecida aldeia de Bambali, a 400 quilômetros de Dacar, a capital do Senegal, nascido em 10 de abril de 1992. Chama-se Sadio Mané, mas de “mané” só tem mesmo o nome.

Sadio Mané é jogador profissional, e desde 2011 atua como atacante nos melhores times da Europa. Primeiro foi para a França, depois para a Áustria, depois para a Inglaterra onde jogou no Southampton. Em 2016, se transferiu para o Liverpool, numa transação de 34 milhões de libras, em um contrato de cinco anos. Tais cifras fizeram dele o jogador africano mais caro da história na época. Naquele jogo fatídico, final do Mundial de Clubes da FIFA de 2019, entre Liverpool e Flamengo em que o brasileiro Firmino marcou o gol da vitória do Liverpool, Mané estava em campo. Desde 2022, é jogador do Bayern de Munique, na Alemanha.

A habilidade de Mané em campo faz dele um artilheiro, comparado por alguns a Messi, Drogba e Cristiano Ronaldo. O excelente futebol que pratica faz dele um ícone da Seleção do Senegal, sendo considerado o maior artilheiro de todos os tempos dessa seleção.

Há um vídeo circulando pela Internet que destaca o fato de que, diferentemente de muitos jogadores famosos e bilionários, Mané não desperdiça seu dinheiro com automóveis da Ferrari ou Lamborghini. Ele tem outras prioridades. Por exemplo:

Em 2019, Sadio Mané doou mais de 300 mil dólares para a construção de uma escola em Bambali. No ano seguinte, doou 52 mil dólares ao Ministério da Saúde do seu país especificamente para combater a Covid-19. Em 2021, doou mais de meio milhão de dólares para a construção de um hospital em Bambali. Financiou também a construção de um posto de gasolina e uma agência dos correios para Bambali. Doou centenas de notebooks ao povo em Bambali, além de financiar provedores de internet 4G, desprendendo mais de 500 mil euros nessas operações. Reconhecendo a necessidade das pessoas em volta de sua família, criou uma espécie de Bolsa Família de mais de 500 reais por mês para mais de 2.000 pessoas. Você pode achar pouco, mas naquele país equivale a um salário mínimo.

Além de desembolsar tanta ajuda, Mané é ainda embaixador de uma ONG chamada Right To Play, cuja razão de ser é capacitar crianças vulneráveis. Também colabora com uma entidade sem fins lucrativos que visa a apoiar meninas e mulheres em seu país na área dos esportes e na de educação.

Mané poderia ganhar os seus milhões de euros tranquilamente, embolsá-los, investi-los ou gastá-los nas farras típicas dos jogadores que são vistos como estrelas. No entanto, sua opção diferenciada me faz levantar a pergunta: Quem realmente é mané?

Consta que numa entrevista ao time do Liverpool, Mané teria dito: “Eu sei como é não ter nada. É por isso que quero ajudar as pessoas.” Mané se deu bem na vida, mas não esqueceu sua família, sua gente, seu país. A dor dos outros não lhe passou despercebida, daí a criação da Fundação Sadio Mané, que viabiliza tantos projetos sociais.

Não, Mané não é cristão. É muçulmano, daqueles que levam a sério a sua religião. Sua filantropia humilha jogadores cristãos que apenas pensam em si e em se divertir. Diante disso, cabe perguntar: Quem é mané?




Nação Dividida

Bebenhausen, na Alemanha, é um lugar lindo e sossegado. O que há de mais atraente aí é um monastério, construído por volta de 1180. Ao tempo da Reforma Protestante (1516), o monastério se tornou um seminário luterano. Depois se tornou palácio do rei e, por fim, parlamento estadual.

Quem lá esteve conta que na sala principal do monastério, está exposto um par de chifres entrelaçados. A escultura, bem ao natural, conta silenciosamente a história de duas gazelas. É uma história tão boa, que preciso resistir bravamente à tentação de contá-la em todo sermão sobre unidade da igreja. Se você fosse contar esta história às crianças, poderia começar assim:

Era uma vez duas gazelas. Daquelas que têm chifres que parecem galhos secos. Elas tinham uma eterna implicância uma com a outra. E um dia deram de brigar por uma coisinha boba. Mas a briga foi crescendo, crescendo, e elas se atracaram. Só que os chifres se entrelaçaram a ponto de não poderem mais se livrar uma da outra. Sabe como terminou a briga? Imagine! À hora da comida, por exemplo, não havia acordo. Uma não deixava a outra comer. Uma puxava pra cá, a outra puxava pra lá. Quando qualquer delas estava com sede, não era possível beber água. Não havendo acordo, não houve mais possibilidade de vida. Ambas morreram.

Um educador, que leu esta história, comentou: “Gostaria de exibir esses chifres em todos os lares e escolas para que a sua mensagem silenciosa pudesse penetrar profundamente nos corações daqueles que gostam de dar chifradas uns nos outros, sob a menor provocação”.

Que tal exibir essa escultura também nas igrejas? Quando os crentes esquecem a sua missão, começam a dar cabeçadas uns nos outros. O resultado quase sempre é trágico.

Mais trágico, porém, é quando uma nação se fragmenta. Jesus chega a ser assustador: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e toda cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus 12.25). Se estas palavras forem verdadeiras, como supomos que são, então temos que orar muito pela Terra Brasilis.



A Graça da Mente Sã

O debate fluía interessante naquele canal de televisão. O assunto era medo. Um por um, os participantes do programa expunham seus temores. Era medo de viajar de avião, medo de cachorro doido, de boi bravo, de sogra ciumenta, de ditadura, da morte; um, retórico, tinha medo de ter medo. Mas uma dessas confissões me chamou a atenção. Culto e respeitado homem de bem, tinha medo da loucura.

Lembrei-me de reportagem lida num dos matutinos do Rio de Janeiro. Aqui perto de mim, o cidadão, formado em engenharia, 26 anos, entrou em casa e a primeira coisa que fez foi, sensacionalismo à parte, matar a própria mãe. Ato contínuo, escondeu-a debaixo da cama e, com uma barra de ferro, resolveu esperar pelo irmão que chegaria logo depois. Chegou o irmão. Luta encarniçada, os dois rolam pelo chão. É um espetáculo triste, recheado de sopapos, cascudos e pescoções. A vizinhança acode e separa os contendores. Na delegacia, tudo fica esclarecido: o engenheiro agressor tinha, vez a vez, ataques de extrema loucura. Foi fora de si que fez o que fez.

Considerada sinal de possessão demoníaca nos séculos XV e XVI, a insanidade mental perturba os membros da raça humana desde tempos imemoriais. Na Bíblia, por exemplo, é referida algumas vezes. Perante Áquis, rei de Gate, Davi “fingiu-se doido… deixando correr a saliva pela barba” (1Samuel 21.10-15). É um caso concreto de alguém que se finge de doido para viver ou, nesse caso, sobreviver. Mas com Nabucodonosor não foi simulação. Seu orgulho foi quebrado pela doença: “Foi expulso do meio dos homens, e comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu o cabelo como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves. Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei ao céu os meus olhos, e voltou a mim o meu entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre” (Daniel 4.33-34).

Os médicos afirmam que há multiplicidade de causas como as orgânicas. Por exemplo, a encefalite (infecção do cérebro), intoxicação pelas drogas ou pelo álcool, traumatismos no cérebro e arteriosclerose. Fatores psicológicos também se responsabilizam por distúrbios psicóticos. Por exemplo, insegurança nos primórdios do relacionamento familiar, quase sempre causados pela rejeição dos pais, disciplina severa ou ainda superproteção. Mas a etiologia desses distúrbios é um tema que transfiro à ciência competente de nosso colunista de “Lar e Saúde”, Dr. Jeiel Ferreira de Souza.

Perguntei, certa feita, a um psiquiatra sobre o modo de se identificar alguma linha fronteiriça entre a loucura e a sanidade mental. Sua resposta foi a de que simplesmente não existe tal linha. Foi então que me lembrei de uma frase escrita à entrada de alguns de nossos hospitais psiquiátricos: “Muitos estão aqui por pouco. Muitos, por pouco não estão aqui”. O que vem confirmar a assertiva que corre o Brasil pra lá e pra cá: “De médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco”.

A primeira vez que visitei um manicômio foi, literalmente, uma loucura. A visita fazia parte do curso de capelania hospitalar no Hospital Batista de Assunção, no Paraguai. Num canto, um grupo jogava cartas, alheio a tudo e a todos. Uma jovem corria de um lado para outro apontando para algo que somente ela “via” na mangueira. Um ancião, em trajes militares, marchava e dizia palavras de ordem aos seus soldados invisíveis. “Era” Napoleão Bonaparte em pleno século XX. Sem falar dos Messias, salvadores da humanidade. Mas doloroso mesmo foi visitar o que seria uma espécie de ala dos casos perdidos. Como animais destituídos de qualquer racionalidade, aquelas criaturas se moviam em imensa e imunda “gaiola”, numa visão asquerosa que feria frontalmente o sentido da dignidade humana. Nesse dia, tive medo de acordar numa dessas manhãs da vida e não “me” encontrar. Nesse dia medonho de 1977, concluí que se devia agradecer ao Senhor as bênçãos da vida espiritual, financeira, da vida do corpo, eu devia também, e com maior razão, louvá-lo pela bênção da sanidade mental. Porque de nada adianta um corpo de Golias, se a mente é de Nero.

(Publicada em O Jornal Batista, 18-01-1987).



O Mistério do Estoque Igual

O folclore judaico é riquíssimo em histórias edificantes. Esta é uma das minhas preferidas.

Eram dois irmãos; um solteiro e um casado. O casado tinha muitos filhos. Os dois compraram uma fazenda e resolveram administrá-la em regime de sociedade. Concordaram que plantariam e colheriam, dividindo igualmente a colheita: metade para cada um.

Os negócios iam bem. Mas um dia o solteiro pensou: “Não é justo que meu irmão e eu dividamos igualmente os frutos, porque sua família é numerosa; é muita gente para ser alimentada, ao passo que eu só tenho a mim mesmo para alimentar. Farei o seguinte: Todas as noites, irei ao meu celeiro, apanharei um saco de grãos e o levarei em sigilo ao celeiro do meu irmão. E, de fato, começou a fazer exatamente assim: Tarde da noite, o irmão solteiro punha às costas um saco de grãos e cuidadosamente o transportava até o celeiro de seu irmão casado.

Por sua vez, o irmão casado também pensou: Não é justo que meu irmão solteiro e eu dividamos igualmente os frutos de nossas colheitas; eu tenho muitos filhos, de modo que, no futuro, quando eu for bem idoso e as forças me faltarem, eles irão certamente me sustentar. Mas meu irmão não tem ninguém por ele. E quando ele for velho, quem o sustentará? Farei o seguinte: Todas as noites, irei ao meu celeiro, apanharei um saco de grãos e o levarei em sigilo ao celeiro do meu irmão.

Assim pensou, assim começou a fazer.

Todos os dias, pela manhã, porém, os dois irmãos ficavam admirados com o fato de que, mesmo levando secretamente um saco de grãos para o celeiro de seu irmão, o estoque de cada um não diminuía.

Uma noite, porém, os dois irmãos se encontraram bem no meio do caminho entre os dois celeiros, cada um com um saco nas costas. Compreenderam finalmente porque o estoque de cada um não diminuía. Surpresos, felizes, de pronto jogaram ao chão os sacos e abraçaram-se demoradamente.

Contam os judeus que Deus olhou lá do céu e flagrou aqueles dois irmãos assim abraçados; e Deus teria dito: “Este é um lugar santo, porque flagrei aí um amor extraordinário”. Acrescentam ainda os judeus que foi nesse mesmo lugar que, mais tarde, Salomão viria a construir o templo.



Avenida Venezuela

Há mal-entendido que resulta em tragédia, revolução, guerra, morte… É preciso evitá-lo a todo custo. Felizmente, porém, existe um outro tipo: o cômico.

Como o daquele dia, 13 de julho de 2007, quando o Maracanã estava superlotado para a abertura dos Jogos Pan-americanos. O então presidente do evento, o mexicano Mario Vázquez Raña (1932-2015), dirigindo-se ao grande público brasileiro em espanhol, disse: “Hoy... es un dia muy especial…”. Mas ao fazer uma pausa retórica mais longa que o esperado após a palavra “hoy”, o Maracanã inteiro e em uníssono, supondo ouvir a saudação informal que tanto utilizamos, respondeu descontraída e longamente: “Oi”.

Lembrei-me disso quando fui com a esposa, em março de 2022, ver a exposição “Monet à Beira D’Água”, da obra de Claude Monet, ícone do impressionismo, no Museu de Arte do Rio, na Rua Venezuela, região portuária da cidade. Projetaram-se 285 obras do artista.

Seguindo a recomendação do Google, fomos de Metrô, descendo na Estação Presidente Vargas. O próprio Google mostrava que caminhar até o museu não seria esforço. E lá fomos nós. A certa altura, numa encruzilhada sem placa de identificação, eu precisava de confirmação se estava na rua certa. Dirigi-me a um senhor de triste semblante, sentado na pracinha. Perguntei apontando para a rua que passava ao lado da praça:

Essa aí é a Avenida Venezuela?

Ele abriu um sorriso, como alguém feliz por ser reconhecido e disse em castelhano:

Beneçuêla, sí — e se levantou feliz, estendendo a mão para cumprimentar-me, como se reencontrasse um velho amigo.

Sorri discretamente diante do mal-entendido, mas aproveitei para perguntar quanto tempo andava por aqui. Respondeu que estava no Brasil havia 7 meses. Uma e outra palavra trocamos, e nos despedimos.

Seguimos pela Avenida Venezuela, chegamos ao museu e vimos a exposição admirável. Umas duas horas e muitos cliques depois, retornamos pelo mesmo caminho, pensando em aprofundar um pouco mais a conversa com o imigrante solitário, se ele ainda estivesse lá. Mas não estava.

Desde 2013, a Venezuela vem descendo a ladeira da instabilidade política, econômica e institucional. Há mais de uma década que seu povo não vê outra saída senão a emigração. É sair para sobreviver. E muitos, pela proximidade, optaram pelo Brasil. Calcula-se que há quase 1 milhão de venezuelanos hoje entre nós, que desembarcaram “com a tristeza no olhar de quem precisou deixar para trás suas casas, parentes, filhos e esposas, buscando conseguir meios para levá-los a um novo local e recomeçar suas vidas”, em frase da reportagem de um site do governo (https://www.gov.br/pt-br/especial-venezuelanos). O mesmo site informa: “Trinta e três venezuelanos, em média, entram no Brasil por hora. Aproximadamente, 800 por dia”. O imigrante triste da pracinha não me deu uma segunda chance. Daí a propriedade da recomendação da Bíblia: “...enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos” (Gálatas 6:10, NVI).

Uma coisa é alguém trocar de país por opção, outra é ter que fazê-lo, coagido pela crueldade das circunstâncias.



O Bambuzal de Bratcher

Nada magoa tanto como o pontapé da ingratidão. Muitos líderes cristãos experimentam na carne e na alma as ferroadas dos ingratos. Entre esses líderes, quero destacar o que acontece com um segmento pouco reconhecido popularmente: os tradutores da Bíblia.

Além da incompreensão, os irmãos chamados por Deus para desenvolverem o ministério de tradução da Bíblia são vítimas desse pecado comum, que é a ingratidão. Sempre digo que se João Ferreira de Almeida não tivesse feito a obra que fez, cada um de nós, crente lusófono, teria que aprender hebraico, aramaico e grego para ler a Bíblia. Hoje dispomos de várias alternativas de tradução em nosso idioma, graças à competência e dedicação desses servos do Altíssimo.

Robert Bratcher (1920-2010) foi um ilustre tradutor da Bíblia. A ele se deve o esforço de disponibilizar a Palavra de Deus numa linguagem mais contemporânea. Fez parte da comissão americana que traduziu a chamada “Bíblia na Linguagem de Hoje”, que você pode ler para as crianças, sem ter que explicar. Catedrático de grego, Bratcher era respeitado como intelectual no mundo inteiro, mesmo não evitando temas polêmicos. O que pouca gente sabe é que ele nasceu em Campos dos Goitacazes (RJ), em 1920, quando o pai, L. M. Bratcher, era missionário naquela grande cidade do Norte Fluminense. Logo depois, a família se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, onde Robert foi batizado pelo pastor Francisco F. Soren, na Primeira Igreja Batista, em 15 de julho de 1928.

Para comemorar os 80 anos de seu batismo, Bratcher veio ao Rio em 2008. Mesmo com 88 anos, estava cheio de energia e de ideias. Hospedado conosco, manifestou o desejo de visitar o Seminário do Sul, onde lecionou Grego e Novo Testamento, de 1949 a 1956. Quando subíamos a colina que leva ao Seminário, ele exclamou admirado: “Olha esse bambuzal! Ainda está aqui. É do tempo da minha infância”. De fato, quem sobe a colina da Rua José Higino, 416, na Tijuca, vê, à direita, um exuberante bambuzal.

Dois anos depois dessa visita, recebemos a notícia de que Bratcher faleceu. Era julho de 2010.

A Convenção Batista Brasileira transferiu as suas juntas e organizações administrativas para a colina do Seminário. Toda vez que vou lá, passo respeitosamente pelo bambuzal teimoso, que continua resistindo à poluição, ao progresso, chuvas e trovoadas. Robert Bratcher se foi ao encontro do seu Criador. Mas o bambuzal continua ali. Um dia, eu também me despedirei deste mundo, seguindo o caminho de toda carne. O bambuzal continuará ali. Mas ninguém pense que o bambuzal é eterno. Os dias dele também estão contados, pois “Seca-se a relva, e cai a sua flor…” (Isaías 40.8). Os elementos do reino vegetal também estão de passagem por este mundo. A vida é oferta por tempo limitado. Homens, bichos e plantas... estamos todos passando por aqui. Davi orou: “…o tempo da minha vida é como nada diante de ti. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é apenas um sopro” (Salmo 39.5). Use bem esse tempinho que Deus lhe dá!



Antes que a Corda Arrebente

Há mais de duas décadas estou tentando descobrir de onde vem esta história, e se ela é real. Quem souber e me informar essa fonte bendita, ganha um chocolate:

No topo de um altíssimo rochedo em Portugal dizem existir um antigo monastério. Quem visita o lugar se encanta com o belo panorama que daí se descortina. Há, porém, um problema sério: o acesso. Não há caminho nem escada; elevador, menos ainda.

A única maneira de se chegar ao monastério é bem rudimentar e perigosa: eles amarram firmemente um cesto de vime a uma corda. O turista ― que deveria receber o prêmio Nobel no quesito coragem ― entra no cesto, que, por sua vez, é lentamente puxado rocha acima por um monge nem tão novo assim.

Um dia, um guia local e um turista americano estavam num cesto que descia lentamente, quando o turista, tomado de pavor, perguntou ao guia:

Sabe dizer se eles trocam essa corda com frequência? Com que frequência?

Com lusitana indiferença, o guia respondeu:

Oh, sim, a cada vez que a corda quebra.

A prevenção de acidentes é coisa que se deve levar a sério. Ainda no deserto, o povo de Israel recebeu instruções incrivelmente atuais: “Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela” (Deuteronômio 22.8). Bem ensina a sabedoria popular: “É melhor prevenir que remediar”.

Verdade no plano material, a instrução de Deus o é ainda mais no espiritual. Se é sábio construir um parapeito no terraço para se evitar uma tragédia, mais sábio ainda é vigiar as nossas vulnerabilidades morais, emocionais e espirituais. É preciso zelar pela segurança da alma, como o fazem os que mantêm o bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Eles se orgulham de que, funcionando desde 1912, o bondinho nunca despencou. Que com igual zelo cuidemos também de nossa fé! Paulo advertiu: “Aquele que está em pé olhe, não caia” (2Coríntios 10.12). Examine a corda que sustenta a sua fé, antes que ela arrebente. Reforce suas conexões para evitar que sua espiritualidade despenque!



Sem Admissão de Culpa, Não Há Graça

F. Scott Fitzgerald (1896-1940) viveu apenas 44 anos. O americano, natural de Minesotta, escreveu obras maravilhosas como O Grande Gatzby (1925), seu romance mais famoso, classificado em segundo lugar na lista dos 100 melhores romances do século XX em língua inglesa, que se transformou em filme nada menos que cinco vezes. Também escreveu muitos contos, 164 ao todo, entre eles, O Caso Curioso de Benjamin Button (1922), que também se tornaria filme em 2008.

Fitzgerald viveu pouco porque bebia muito, dando munição ao argumento de que o estilo boêmio de viver nada tem de saudável. Ele e a esposa Zelda viveram em Paris alguns anos, convivendo inclusive com Ernest Hemingway.

Em 1936, Fitzgerald registrou e comentou em artigo uma frase que os franceses gostavam muito de repetir então: “Se você pensa que o mundo é uma droga, não esqueça que a droga é você”. O original, em vez de “droga”, traz um palavrão, que estou, evidentemente, substituindo. Mas a sabedoria do recado permanece inalterada.

Por que sabedoria?

Porque é muito fácil, é convenientemente cômodo culpar os outros pelos nossos fracassos. Se o País é o que é, culpados, dizemos, são os colonizadores portugueses, culpado é o catolicismo, o capitalismo, o Congresso Nacional, a Rede Globo, a alienação do futebol, do Carnaval… Quem sabe não é o sol tropical, que nos anestesia a moleira e nos embala o ócio?! Se os evangélicos tradicionais têm problemas, a culpa é dos primeiros missionários.

A transferência da culpa pode ocorrer também em casa. É o marido, que só vê defeito na pessoa e na performance da esposa. É a esposa, que vive dizendo que “o problema é dele”. São os filhos, que teimando em não crescer, apontam o indicador para os pais, como a dizer: “Vocês estragaram a minha vida”.

Esta atitude me lembra uma musiquinha da década de 70, sucesso nas paradas, cuja letra também já desconversava: “Eu sou rebelde, porque o mundo quis assim...”.

O fenômeno se repete na igreja. Culpado é o pastor, que não vê isso, que não faz aquilo... E por que os diáconos não procedem deste ou doutro modo?

Até nisso saímos a cara do nosso pai primeiro. Adão culpou Eva, que culpou a serpente, que não culpou ninguém, porque para o Diabo culpa não existe. Arão fez um bezerro de ouro e cedeu ao impulso de idolatria dos israelitas. Chamado a prestar contas, saiu-se com uma pífia explicação, como quem diz: “Culpado é o fogo”.

A grandeza do homem está no reconhecimento de suas falhas. É o primeiro passo para a construção de uma vida significativa, de lares lapidares, igrejas impactantes e um país próspero. Sem a admissão da culpa, a graça se torna nula.

O problema pode não estar nos outros, mas em mim. E a solução também. Consciente de seu coração corrompido, o crente corre para a cruz e ali experimenta o alívio que o perdão confere.

Que o Senhor nos aperfeiçoe também nessa área!



Haja Paz na Terra

Recebi, há poucas semanas, um vídeo que mostra uma garotinha chorando ao fazer o Dever de Casa, como se coisa grave tivesse acontecido. Chora porque não quer escrever no caderno o nome do Presidente da República. É apenas uma criança, que não tem a mínima noção da complexidade dos problemas políticos de um país. Onde aprendeu a odiar assim?

Enquanto reflito sobre a transmissão do ódio de pais para filhos, me recordo de dois momentos na minha vida. O primeiro deles foi no Rio de Janeiro.

O garotinho carioca andava aí pelos oito ou nove anos. Criticando alguma coisa que o então presidente americano George W. Bush fizera, exclamou: “Odeio os americanos!”. Respondi a ele: “Minha esposa é americana”. E eu sabia que ele não a odiava; pelo contrário, a admirava. Apanhado de surpresa, não soube o que responder.

O outro episódio foi vivido na cidade bíblica de Hebrom, no Oriente Médio. É aí que fica a chamada Cova de Macpela, com os supostos túmulos de Abraão, Sara, Isaque, Rebeca, Jacó, Lia e José. O local é hoje uma mesquita, à porta da qual soldados israelenses mantêm plantão permanente.

Desde 1993, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, territórios habitados por palestinos (árabes), integram a região administrada pela Autoridade Nacional Palestina (ANP). A ANP é uma espécie de rascunho de um Estado Palestino, tentando-se assim resolver um conflito que por décadas dilacera o Oriente Médio. Aliás, desde 2010, o Brasil reconhece a ANP como um Estado palestino.

Por razões de segurança, os turistas são avisados a evitar Hebrom. Em junho de 2014, Peggy e eu fomos a Israel e desejávamos visitar Hebrom. Aconselharam-nos a ir num ônibus de carreira. Seria mais seguro. Assim, fomos de Jerusalém a Belém, onde visitamos a Igreja da Natividade, e de lá, em outro ônibus, a Hebrom. Do centro de Hebrom, caminhamos até a mesquita/Macpela, numa distância de menos de um quilômetro. Éramos os únicos turistas por ali. Logo, um garotinho simpático juntou-se a nós, oferecendo-se para ser o nosso “guia”. Misturando inglês e árabe, queria, na verdade, alguns trocados.

Quantos anos você tem?”, perguntei. “Cinco”, respondeu. Enquanto ele seguia conosco, vimos alguns soldados israelenses fortemente armados. O garotinho não se intimidou. Começou a repetir para mim um discurso que evidentemente não era seu: “Os palestinos são bons; os israelenses não são”. E quando íamos passando por um dos soldados, o menino chegou pra ele, dedo em riste, e atacou: “Os palestinos são bons; os israelenses não são”. Felizmente o soldado tinha maturidade e experiência para saber que essa reação é normal por ali, e simplesmente olhou para o outro lado.

Ficou-me a pergunta: quem ensinou aquele menino a odiar assim? Em que escola terá aprendido essa matéria tão perversa? Há futuro para um país que faz do ódio a sua bandeira?

Foi pensando naquele garotinho que decidi orar pela paz na Palestina, e, mais recentemente, na Ucrânia. E com a atriz Evelyn Merchant (1913–1995), conhecida como Harlene Wood ou Jill Jackson-Miller, que possamos cantar: “Haja paz na terra”.



Uma Proposta Pós-Polarização

Li a história verdadeira de um garotinho americano chamado Brian. Ele tinha quatro irmãs. Só ele de homem. Seu maior alvo na vida era de uma maldade só: um dia, fazer as quatro chorarem ao mesmo tempo. E esse dia chegou, quando seus pais colocaram os cinco no banco de trás e foram visitar a vovó. Nessa época, ainda não se proibia a superlotação. No carro, Brian começou a perturbar as irmãs: puxou o cabelo de uma, beliscou a outra, bateu na terceira, ameaçou a quarta... e no final, todas estavam chorando. Não é que ele havia conseguido?

Ao ouvir o choro de todas elas, sabendo a causa, o pai parou o carro e ordenou: “Brian, desça do carro. Agora”. “Descer? Como assim?” “Você me entendeu: desça imediatamente”.

Contrariado e amuado, o menino abriu a porta e desceu. O pai disse: “Agora feche a porta”. Ele bateu a porta, e o pai enfiou o pé no acelerador, indo embora pela estrada fora, deixando o menino chorando lá longe.

Dentro do carro, as meninas começaram a chorar também, mas agora por outro motivo: ficaram com pena do irmão, com medo que algo lhe acontecesse. Então, chorando, pediram ao pai que retornasse e pegasse Brian. O pai nem discutiu: manobrou no meio da pista e voltou para pegar o menino.

Brian Bill cresceu, aprendeu muitas lições da vida, se converteu e foi batizado. Hoje, pastor batista no Estado de Illinois (EUA), contou esta história num sermão em 2013 e disse que as quatro irmãs correram a abraçá-lo entre lágrimas. (A partir do testemunho pessoal de Brian Bill em https://www.sermoncentral.com/sermons/keep-the-siblings-lose-the-rivalry-brian-bill-sermon-on-family-146717 – acesso em 12-12-2013).

Na família da fé, somos todos irmãos. E às vezes, não poucas, os irmãos nos decepcionam, nos provocam a paciência até os limites, nos fazem sofrer e chorar. E certamente nós também os decepcionamos em semelhante proporção. Jesus deixou instruções claras, um manual para corrigirmos situações que ameacem a nossa convivência. Se tivéssemos que fazer um resumo dessas instruções numa só palavra, creio que essa palavra poderia ser perdão. Talvez a oração que mais devêssemos fazer todo dia e o dia todo seja: “Senhor, ensina-nos a perdoar”. Quando perdoamos, abrimos a possibilidade de desfrutarmos de um relacionamento sem ressentimentos. Perdoar é verbo fundamental para quem queira viver com alegria. Não conheço nenhuma pessoa de espírito vingativo que seja feliz. Sem perdão, não há casamento que se sustente, não há relação que se mantenha, não há emprego que se conserve, não há ministério que vá pra frente. É séria a denúncia atribuída a Martin Luther King Jr., cuja morte estúpida ocorreu há mais de meio século: “Nós já aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”.

À semelhança da igreja de Jerusalém, precisamos perseverar na doutrina, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Se não praticarmos a solidariedade com os irmãos na fé, sob o impulso do Espírito Santo, dificilmente o faremos com outras pessoas em outros círculos.



Siga Aquele Camelo

O inglês Frank W. Boreham (1871-1959) era pastor batista e escritor apreciado. Em seu livro Um punhado de estrelas, publicado em 1922, mas inédito em português, conta ter lido a respeito de uma prática interessante entre os beduínos.

“…quando uma caravana está em perigo de perecer por falta de água, eles desamarram um camelo e deixam que ele siga por si mesmo. O excelente instinto do animal vai levá-lo invariavelmente até uma fonte de águas limpas.

Assim que aquele camelo se torna um pontinho no horizonte, um dos árabes monta seu camelo e parte na direção em que o animal libertado seguiu. Quando, por sua vez, ele vai desaparecendo de vista, outro árabe monta e segue aquele. E assim sucessivamente.

Quando o primeiro camelo encontra água, o primeiro árabe se volta e gesticula vigorosamente para o segundo; o segundo para o terceiro, e assim por diante, até que todos os membros da caravana estejam reunidos junto à fonte” (BOREHAM, F. W. A handful of stars. Toronto: The Ryerson Press, 1922, p. 42).

Numa pesquisa feita por um instituto que analisa o fenômeno do crescimento de igrejas, perguntou-se a 10.000 pessoas o que foi que as levou à igreja onde puderam conhecer a Cristo. Veja os resultados:

1% - Visita em seu lar;
2% - Uma necessidade específica;
3% - Um programa especial;
3% - Simplesmente entraram na igreja;
5% - Escola Dominical;
5% - Cruzada (ou conferência) evangelística;
6% - A influência de um pastor;
75% - Influência de um amigo ou parente;

Nada substitui o contato pessoal. Nada é tão impactante quanto a influência de um amigo ou parente. Quando recebemos uma boa notícia, a vontade que dá é sair correndo para a rua e gritar para todo o mundo o que de bom nos aconteceu. Em Cristo, achamos a fonte da água da vida, que jorra para sempre. Evangelizar é levar os amigos sedentos até essa fonte.

As igrejas contemporâneas estão sendo sistematicamente assediadas pela tentação de abandonar a agenda de Jesus em favor de um discurso mais culturalmente palatável. O apetite pelo prato de lentilhas da publicidade está falando mais alto que o privilégio da primogenitura. Há poucos crentes tentando ganhar alguém para Cristo. Poucos de nós estão orando pela conversão de pessoas específicas. Para casos assim, seria bom lembrar uma frase de Alexander Duff (1806-1878), missionário na Índia do século 19, e que desempenhou um papel relevantíssimo na criação da Universidade de Calcutá. Sem deixar que seus esforços intelectuais comprometessem seu ministério missionário, ele escreveu: “A igreja que deixa de ser evangelística em pouco tempo deixa de ser evangélica”.



Você Fala Siglês?

Há duas coisas na vida sem as quais não conseguiríamos viver: oxigênio e siglas. Melhoremos aquele e falemos destas.

Segundo o IBGE do idioma, elas são inúmeras, e se espalham por metástase em todas as UFs. Não há IMETRO que calcule o peso e a presença desses conjuntos de letras em nossa língua. Desde políticos como JK, ACM, FHC… todos lançam mão delas. Como entender o Brasil que hoje nos rodeia sem ARENA ou PDS, MDB, PMDB, PP, PT, PSDB, PDT, PCB, PCdoB?

Para sustentar políticos de tanta sigla, haja IPTU, ICMS, IOF, IRPF, IPVA… Há uma inflação de DARFs no orçamento do brasileiro. Se não pagar, já sabe: o nome vai para o SPC ou SERASA. Quiseram simplificar os impostos, criando-se a CPMF, mas não deu certo. Sem falar nas contas da CEDAE, que pingam todo mês. E não adianta se queixar ao bispo, porque a CNBB não tem um SAC.

Para que inventar CPI? É melhor passar um SMS para quem entende e pedir um SOS. É inútil ficar nervoso e apelar para o STF. A solução passa pela educação. Mas também não é suficiente investir no IME, no ITA, na ESPM, na UFRJ, na USP, na Unicamp. Presencial ou EAD, não faz diferença. Nem com MBA, PhD ou pós-doc, nem com bolsa do CNPQ. É tanto TCC, será que o professor lê?

É preciso olhar o ensino básico. É lá que tudo começa. Para chegar à NASA, o jovem precisa, em menino, receber os rudimentos, tem que partir do ABC. Para isso, o MEC precisa estar atento e investir bem as verbas que recebe.

Além da educação, a saúde também merece um raio-X. Abaixo doenças como AIDS, AVC, ELA, Covid, o catálogo é enorme. Seja pelo SUS ou UNIMED, AMIL, UPA, o doente tem prioridade. Porque quando a coisa fica feia, a gente pode ir parar onde a gente não quer: na UTI. Felizmente, para o HIV já existe o AZT. A fórmula da saúde, dizem, é DNA mais prevenção: caminhar, dormir, alimentar-se corretamente e fazer uso das vitaminas A, B, C, D, E e etc. Não esqueçamos as vacinas, das quais a mais popular é a BCG. A OMS, órgão da ONU, avisa que só não há vacina para o atraso. Temos que melhorar o PIB, porque a partir daí teremos melhor posição no IDH. Não, TPM não é doença. E o teste de PSA é só para homens, minha senhora!

CEO, evite as drogas. LSD, CBD, o pesticida DDT (diclorodifeniltricloroetano), tudo aponta para o cemitério, talvez com um estágio antes no IML, além da possibilidade de dar BO. Aí vai ter que contratar o serviço de um dos associados da OAB.

Sem o domínio das siglas, é impossível compreender ou interagir com o mundo contemporâneo. É preciso saber se a rádio é AM ou FM. Tanto faz se for a BBC, a JB ou a CBN. Sem falar na televisão: a CNN, a TVE, a CNT, o GNT, o SBT, o tal G1. A comunicação moderna exige dominar o siglês. Não é preciso ser um MEI para saber a diferença entre CPF e CNPJ.

Imagino que tenha sido uma tentação para o SNI, a Gestapo, a CIA, o FBI, a KGB, o MOSSAD israelense usá-las para encriptar dados de suspeitos.

Sorte a nossa que inventaram o futebol, embora a CBF e a FIFA às vezes sobrecarreguem os calendários dos times. Se faltar futebol, há a música. Aí está a MPB para embalar os nossos sonhos, às vezes interrompidos por uma AK-47 ou um AR-15.

Em BH, SP ou em NYC, sempre haverá um museu para alguma coisa. Acho que falta um museu especial para… as siglas da vida. Apenas uma delas parece em expansão: LGBTQIA+.

Preciso parar. Meu HD está ficando sobrecarregado, e a porta USB parece estar inoperante. Vou mandar o texto para a nuvem, sem auxílio da FAB ou da Embraer. Nem vou falar de IA.

Ai de mim se não soubesse siglês!



O Sequestro da Agenda

Nas aulas de filosofia, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), às vezes o tempo fechava. Um aluno, médico bem relacionado nos meios políticos do Rio de Janeiro das décadas de 70 e 80, sentava ao nosso lado na década de 90. Lera O Capital, de Karl Marx, mas com uns óculos tendenciosos, que o tornariam mais marxista que o próprio Marx. E como acontece com todo radicalismo, acabava protagonizando os maiores embates, as mais acaloradas discussões com o restante da turma. O debate ficava ainda mais aquecido – e diria até que derrapava para o bate-boca – quando o interlocutor era ninguém menos que um dos professores. Aí a aula acabava, e era um pingue-pongue nem sempre agradável de se presenciar.

Na Uerj daquele tempo, havia muita aula vaga. A turma aproveitava para conversar nos corredores ou na cantina.

Apesar do imenso fosso que separa marxismo de fé cristã, ele e eu tínhamos, senão comunhão, bons momentos de bate-papo. Pelo menos havia um clima amigável entre nós. Ele brincava comigo que conhecia a Bíblia, e sorrindo recitava “O Senhor é o meu pastor”, que eu aproveitava para elogiar.

Aconteceu que o mais-marxista-que-Marx, numa dessas folgas certo dia, estava sozinho num canto. Aproveitei para me aproximar. A conversa fluiu tranquila. Eu fazia perguntas, e ele respondia. Era “visível” o vazio de um coração à míngua de transcendência.

Na informalidade da conversa veio à tona a agenda social da igreja, que ele criticava como não existente, que a igreja só pensava no céu além, esquecendo as necessidades aquém, repisando chavões do marxismo.

Foi nesse ponto que tirei do bolso o meu exemplar do Novo Testamento e perguntei: “Você quer mesmo saber o que a Bíblia diz sobre isso? Então escute”. Abri Tiago 5 e li compassadamente pra ele:

5.1 Agora, prestai atenção, vós ricos. Chorai e lamentai, por causa das desgraças que virão sobre vós.

5.2 Vossas riquezas estão podres, e vossas roupas, roídas pela traça.

5.3 Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem testemunhará contra vós e devorará vossa carne como fogo. Tendes juntado tesouros nos últimos dias.

5.4 O salário, que desonestamente deixastes de pagar aos trabalhadores que colheram nos vossos campos, clama; os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos.

5.5 Vivestes em delícias sobre a terra, satisfazendo vossos prazeres. Engordastes o coração no dia da matança.

5.6 Condenais e matais o justo, e ele não vos oferece resistência alguma.

Quando terminei a leitura, ele parecia estar em estado catatônico. Segundos depois, que nos pareceram horas, ele estava humilde: “Eu não sabia que a Bíblia tinha uma coisa dessas!”.

Spurgeon dizia que a Bíblia é como um leão, e um leão não precisa da nossa defesa. Ali estava mais uma prova desta verdade: a Bíblia falara por si.

Deixo apenas uma questão antes de concluir: se a agenda da igreja inclui a defesa dos pobres, como eloquentemente o diz Tiago, por que permitimos que ela fosse sequestrada e dada a ideologias materialistas?



Bate-papo de Dois Cachorros

O cenário pode sugerir que tudo isso aconteceu na Índia, mas não foi em lugar tão distante. Foi bem próximo da gente, no Rio de Janeiro.

Teria trinta anos? Talvez! Era negra, catadora de papel e tinha um cachorrinho magro, que trazia amarrado à carrocinha estacionada ao lado da calçada. Em sentido contrário, lá vem uma dama de casta visivelmente mais elevada, passeando com o seu cachorro enorme, bonito, asseado, penteado e com um focinho que traduzia saúde. Os irracionais se veem e fazem festa e esforço para se tocarem. Madame tem agora um dilema: deixar que seu cachorro de Primeiro Mundo entre em contato com a miséria que se esparrama pela calçada ou puxar fortemente a coleira e fingir que não há ninguém ali. O instinto vence, e os dois irracionais se cheiram prazerosamente, indiferentes à gangorra social dos homens, que artificialmente põe alguns lá em cima e cruelmente prende outros lá embaixo.

Madame vira o rosto para não ter que encarar a cena humilhante que está para acontecer, bem diante dos seus olhos. Mas ao mesmo tempo permite que seu bichinho tenha essa alegria animal. Libera a coleira, mas ainda assim, não dirige a palavra à outra. Por que não? Porque cavou-se entre elas um abismo invisível, que, aliás, nem é tão invisível assim. Para muitos, além de invisível, o abismo é também intransponível. Custava olhar para a pobre mulher e deixar escapulir um “bom dia” que fosse? Custava perguntar o nome do cachorro magro? Até porque, a outra não estava ali roubando, não estava vilipendiando o patrimônio alheio, estava trabalhando, recolhendo o melhor do lixo de madame.

Se este texto fosse uma fábula, poderíamos imaginar o diálogo dos dois cachorros:

E aí, amigão, tudo bem? — perguntaria o cachorro da rica, indiferente à aparência do outro.

Tudo. Embora às vezes a vida é um osso duro.

O vira-latas então filosofa:

Você sabe me dizer por que a dona da tua coleira não fala com a minha patroa?

Rapaz, não faço a menor ideia. Esses seres humanos são muito complicados. Não há cachorro que os entenda! E ainda se ufanam de serem racionais!

Nosso fracasso na demonstração de tolerância e amor fraternal comprova a veracidade de uma lamentação atribuída a Martin Luther King Jr. (1929-1968): “Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos”.

Como disse, não estamos na Índia ainda retalhada por um absurdo sistema de castas, realidade que os filmes de Bollywood retratam com crueza e denunciam com um alto grau de fidelidade. Não. A cena passou-se na Tijuca, em outubro de 2008, na mesma praça onde fica o templo da Igreja Batista Itacuruçá, episódio do qual fui testemunha ocular. A presença da igreja nesse cenário pode não ser casual, mas, sim, um lembrete de que a pregação do evangelho representa a esperança de ver, no Brasil, negros e brancos se abraçando, pobres e ricos se ajudando, conversando, produzindo uma atmosfera de respeito e comunhão. Se o evangelho falhar, concordemos com Pedro: “…para quem iremos nós?



Chega de Katalaléo

De minha infância recorto e reparto um episódio infeliz, embora eu mesmo de nada me recorde. Conto como meus pais me contaram. Eu devia ter uns três anos de idade e fui “arrastado” por meu pai até um botequim próximo de nossa casa, onde papai foi comprar alguma coisa. Junto ao balcão, estava apoiado um soldado muito conhecido na pequena cidade de Ecoporanga (ES). Papai conta que eu olhei para o soldado, e depois, em alta voz, perguntei ao meu pai: “Pai, esse é que é o soldado cara de b...?” (E vinha em seguida um palavrão, sinônimo de excremento, que eu não posso reproduzir, nem aqui, nem em lugar nenhum!!!). Creio que nunca, em toda a minha vida, deixei meu pai tão embaraçado como devo ter deixado nesse dia! Mas, cá entre nós, é bom lembrar que em casos assim, a culpa não é da criança.

Nem sempre temos noção da gravidade de nossas katalalías. Achamos que são inofensivas ou inconsequentes. Mas quem lê a Bíblia sabe que pecado nenhum é inofensivo. O sábio disse: “A boca do justo produz sabedoria, mas a língua perversa será cortada” (Provérbios 10.31, A21).

A doença de falar mal dos outros não é privilégio de criança de três, quatro ou cinco anos. Ataca todas as faixas etárias.

O pragmatismo de Tiago bate na cabeça do prego: “Irmãos, não faleis mal [katalaleo] uns dos outros. Quem fala mal de um irmão e o julga, fala mal da lei e a julga. Se julgas a lei, já não és cumpridor da lei, mas juiz. Há um só legislador e juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem és tu, que julgas o próximo?” (Tg 4.11-12).

A palavra grega que o apóstolo usou (katalaléo) e aqui traduzida como “falar mal” significa literalmente “falar para baixo”, depreciar, ou caluniar. É quando passamos adiante fatos acerca de uma pessoa, mas o fazemos de tal maneira que ela é colocada para baixo e humilhada. É falar de alguém de uma forma que terá sua reputação diminuída aos olhos (ou aos ouvidos!) dos outros. Esta prática geralmente ocorre na ausência da pessoa referida, quando ela não tem oportunidade de defesa. O que é dito dessa pessoa ausente pode até ser absolutamente verdadeiro, mas a intenção do comunicador é perversa, já que procura diminuir a pessoa.

Albert H. Cantril, professor da Universidade de Princeton, realizou, certa vez, uma série de experimentos para demonstrar a rapidez com que os boatos se espalham. Ele chamou seis alunos e, pedindo sigilo, informou a eles que o duque e a duquesa de Windsor estavam planejando participar de um baile na universidade. Uma semana depois, a história, completamente fictícia, havia alcançado quase todos os estudantes no imenso campus. Pouco depois, as autoridades da cidade ligaram para a universidade, querendo saber por que eles não haviam sido informados. Agências noticiosas telefonavam desesperadamente para a universidade, querendo obter mais detalhes.

O Dr. Cantril escreveu mais tarde: “Foi um boato agradável. Mas quando a notícia é caluniosa viaja ainda mais rapidamente”. Chega de katalaléo. Na falta do que fazer, vá catar coquinho!



Sai Pra Lá, Cacofonia

Quando eu tinha 13 anos, cantava primeiro tenor num quarteto masculino de adultos. Até ali, cantávamos sem problema o hino que todo quarteto cantava: “Pecador outrora”. O estribilho dizia: “Há um novo nome lá na Glória: é o meu, oh sim, o meu...”. Certo dia, no ensaio, a frase tantas vezes antes cantada com seriedade, de repente soou aos ouvidos como: “...é o meu, ossinho meu”. Disparamos a rir e rimos tão descontroladamente que isso chegou até a inviabilizar o cântico dali por diante. O hino teve que sair do repertório, porque nenhum de nós conseguia agora ficar sério diante do “ossinho”.

Anos mais tarde fiz parte da Comissão que produziu o Hinário Para o Culto Cristão (HCC). Um dia, almoçando no Rio com o maestro Donaldo Guedes, de São Paulo, ele perguntou: “Vocês vão deixar o hino da ‘buzinação’?”

Hino da buzinação? Do que você está falando?”

Ele estava falando do hino “Coroai” (Cantor Cristão, 60), cujo verso diz: “Ó raças, tribos e nações...”. Tínhamos então que resolver aquilo, e até que foi fácil encontrar a solução. Bastou inverter os elementos: “Ó tribos, raças e nações…”, que é como ficou no HCC.

José Arantes da Silveira, por muitos anos pastor no Estado do Espírito Santo, tinha arrepios escandalosos quando ouvia alguém, em oração, pedir a Deus a bênção “por cada” pessoa ali presente.

Solidonio Cedro, falecido diácono de Cascadura, declamava feliz um trecho de poema atribuído a Rui Barbosa. O poeta baiano homenageava a sua amada, dizendo: “...quando ela canta, ela fala; quando ela fala, ela trina.” E provavelmente se lembrando de trechos recolhidos das aulas de sua infância, e mesclando tudo, aquele bom diácono acrescentava: “A minha amada, essa fada... não há mulher como ela”. Mulher-latrina (“ela trina), mulher-galinha (com moela), vê-se que estamos mal, não direi das pernas, mas dos ouvidos.

Numa das várias disputas eleitorais de que participou, o então candidato Lula teria dito: “O Maluf disputa, disputa, mas nunca ganha”.

Afinal, do que estamos falando?

Estamos falando de cacofonia, palavra grega, que significa literalmente “voz ou som ruim”. É quando a última sílaba de uma palavra se junta à primeira da que lhe segue. “Por cada”, “nosso hino”, “boca dela”, “uma mão”, “ela tinha” são exemplos mais frequentes quando o assunto é som ruim.

O remédio? Como a cacofonia se inclui na lista de vícios de linguagem, seria bom aprendermos a combater mais esse vício. Faz-se necessário o treinamento do ouvido para identificar e acusar a presença dos sons ruins. Uma estratégia altamente recomendada, indolor e eficaz é a de fazer leituras em voz alta. É quando a boca educa o ouvido. Não custa nada tentar!



Todos? Não!

Uma das primeiras heresias que a igreja teve de combater com todas as armas lícitas foi a chamada doutrina do universalismo. Vem do Gnosticismo dos dias apostólicos a crença de que todos serão salvos indistintamente. Tal crença foi defendida e ensinada por boas cabeças como Clemente de Alexandria, Gregório de Nissa e Orígenes (185-254). Este último chegava ao extremo de acreditar “que até mesmo o diabo poderia finalmente ser salvo”, heresia que a Igreja condenou no seu quinto Concílio, realizado no ano 553 em Constantinopla, atual Istambul, Turquia.

Toda heresia dá trabalho à liderança, e esta não foi, e não é, diferente. Por isso, mesmo sendo conhecido como “o apóstolo do amor”, o velho João radicalizava: “Se alguém vem ter convosco, e não traz este ensino, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis” (2João 10). O pano de fundo de 2João, que é o mesmo de 1João, mostra que a igreja de Cristo estava sendo atacada pelos lobos devoradores do gnosticismo. Tais falsos mestres andavam por toda parte ensinando as suas heresias, entre elas o universalismo, que não está morto.

Um livrinho gostoso de ler, Jesus, Nosso Destino (São Bento do Sul [SC]: Editora União Cristã, 2007), foi publicado por um pastor na Alemanha de nome Wilhelm Busch. Inflamado pela evangelização, escreveu:

A mesma coisa disse o meu conterrâneo Goethe (ele também, como eu, é de Frankfurt – Alemanha): ‛Sentimento é tudo. Nome é som e fumaça... Alá, Buda, Destino ou Ser Superior, que diferença faz? O principal é ter fé. Seria fanatismo querer precisá-la’. (...) Ainda vejo diante de mim a simpática senhora que me declarou: ‛Pastor, lá vem o senhor com a sua conversa a respeito de que é preciso ter fé em Jesus! Não foi o próprio Jesus que disse: ‛Na casa de meu Pai há muitas moradas’? Lá há lugar para todos, pastor, não precisamos nos preocupar” (p. 9).

As heresias são alguns dos males derivados de uma leitura seletiva da Bíblia. Se a Bíblia se explica com a própria Bíblia, então por que o conjunto das Escrituras não ensina o universalismo? Pelo contrário, tanto nos evangelhos quanto nas epístolas de Paulo, Pedro, Tiago e João, o ser humano é desafiado a crer em Cristo como único Salvador, sabendo que falhar em preencher essa condição única para a salvação é perder-se para sempre. Basta lembrar o conhecido verso de João 3.16, que as igrejas ensinam às crianças, e que Lutero considerava “o evangelho em miniatura”. O final do verso detona o universalismo: “…para que todo aquele que nele crê não pereça [não seja condenado], mas tenha a vida eterna”. A vida eterna não é para todos, mas para “todo aquele que nele crê”. Paulo e Silas disseram ao carcereiro de Filipos o que era necessário fazer para ser salvo: “Crê no Senhor Jesus, e tu e tua casa sereis salvos” (Atos 16.31, A21). Depois Paulo escreverá: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2.8).



Israelzinho

No perigoso Iraque de Saddam Hussein, ao passar pela polícia federal no aeroporto de Bagdá, o trabalhador brasileiro, exausto de tão longa viagem e apreensivo, sem saber como seria tratado ao entrar num país em guerra, tenta entender de imediato, pela objetividade dos gestos, o que o policial nervoso solicitava. Uma caneta? Sim, uma caneta. Depois, o policial tomou das mãos do brasileiro o mapa-múndi que este trazia, e ordenou: “Mostre-me Israel aí”. Mesmo sem entender a razão da ordem, o brasileiro obedeceu.

Protagonizando cenas de ódio explícito, o policial começou a, literalmente, riscar Israel do mapa. Rilhando os dentes, soltando a baba de uma ira multissecular, fez tanta pressão contra o mapa, que não apenas Israel foi riscado, mas também, de roldão, alguns países árabes limítrofes.

Lemos, em Ezequiel 20.6 e 15 que a Terra Prometida, “a que mana leite e mel, é a glória de todas as terras”. Será que eu entendi direito? Israel, “terra gloriosa”? Como pode ser gloriosa uma terra tão diminuta, sem ouro, sem petróleo, com um rio que, rigorosamente falando, não passa de um córrego, cercada por uma vastidão desértica, com um mar que tem o nome pouco animador de Mar “Morto”? Será que Ezequiel usou a palavra errada? Não sabia ele o que é “glória”? Claro que sabia. Mas ele a chama de gloriosa, não por causa dos (poucos) atributos geofísicos dessa estreita faixa de terra entre o Jordão e o Mediterrâneo. Onde estaria então a glória de Israel?

Israel é “a glória de todas as terras” tão-somente pelo fato de que Deus a incluiu em seus planos eternos como ponto de partida de sua revelação aos homens. Israel seria o principal terreno e teatro das teofanias de Javé, o lugar onde o Verbo se faria carne e habitaria entre nós (João 1.14). O salmista, falando em nome de seu povo, diz que o Senhor “escolheu para nós uma terra como herança” (Salmo 47.4, NVT). Hoje, a herança da Igreja não é territorial como o foi a de Israel. A desterritorialização do Reino de Deus se dá com o ministério e a obra de Jesus: “...o Reino de Deus está dentro de vocês” (Lucas 17.21 – NTLH), disse ele. Pedro fala de nossa herança eterna, mas não aqui (1Pedro 1.4-5). A herança da nossa salvação está bem guardada para nós no céu. E nós, acrescenta Pedro, estamos guardados “pelo poder de Deus” para um dia tomarmos posse dessa herança.

A glória de Israel é um presente da soberania e do amor de Deus (Deuteronômio 7.7-8). Israel é terra gloriosa porque foi presente de Deus para o seu povo. E tudo o que o Senhor nos dá, seja uma terra enorme ou um punhado de chão, é glorioso, é motivo de celebração, é razão para cultuar. Então imagine como é maravilhosa a nossa herança no céu. Que o Senhor aumente em nós a percepção de suas bênçãos!



A Desconstrução da Selvageria

Quando eu chegar ao céu, quero conhecer cinco irmãos em Cristo: Jim Elliot, Nate Saint, Roger Youderian, Ed McCully e Pete Fleming. A história deles está num dos livros missionários mais emocionantes que já li: Through Gates of Splendor (“Pelos Portões do Esplendor”), de Elizabeth Elliot, a viúva de Jim. É o relato de uma das maiores tragédias no campo missionário, que em janeiro de 2006 virou filme também (“O Fim da Lança”).

Aconteceu no Equador. Em 1956, esses cinco jovens eram recém-casados, começando a vida, as famílias e seus respectivos ministérios. Eles se uniram num objetivo: ganhar os Aucas para Cristo. Aucas? Quem eram eles?

Os Aucas, no interior do Equador, eram os indígenas mais agressivos da região. Na verdade, eles se autodenominavam huaoranis (o povo), mas os outros indígenas os chamavam Aucas, que na língua quíchua quer dizer “selvagem”. Se os próprios indígenas tinham medo deles, já dá uma ideia da ferocidade e da brutalidade do grupo. Tinham o mais alto índice de violência da face da terra: 60%. Matavam estrangeiros, patrícios e bebês. Por medo, o morto não era enterrado sozinho, mas um filho vivo era enterrado junto.

Depois de várias tentativas preliminares de contato, que pareciam promissoras e bem-sucedidas, chegou o dia 8 de janeiro de 1956. Os cinco missionários marcaram um encontro com os indígenas, às margens do rio Curaray, próximo à aldeia. Mas o que era sorriso e cordialidade se revelou ser uma armadilha fatal: os índios não apareceram. Ao invés disso, os cinco missionários foram literalmente atravessados pelas lanças afiadas pelo ódio que partiam de dentro da floresta. Seus corpos tombaram no rio. A tragédia virou manchete internacional na época. Será que vale a pena tentar salvar gente tão violenta? Muitos cristãos se perguntavam.

Passadas as primeiras emoções da crise, outros missionários voltaram. Algumas viúvas, em vez de ir embora, se mudaram para o interior da aldeia. E a luz do evangelho brilhou na floresta amazônica equatoriana. O “povo” experimentou a graça de Deus. E o que aconteceu?

Os lobos huaoranis se tornaram ovelhas mansas. O número de assassinatos diminuiu drasticamente, em até 90%. Vidas e hábitos foram transformados. Um fato maravilhoso aconteceu: dois dos assassinos de 1956, Kimo e Dyuwi, se converteram, tornaram-se obreiros e batizaram depois dois filhos do missionário morto, Nate Saint (com informações suplementares extraídas do site www.beyonthegatesthemovie.com/waodoni.asp – acesso em 15-09-2007).

Deus é Senhor da história. Ele vê as injustiças, e Ele tem a capacidade de instrumentalizá-las para o bem de todos.

O Espírito de Deus se une com o nosso espírito para afirmar que somos filhos de Deus.  Nós somos seus filhos, e por isso receberemos as bênçãos que ele guarda para o seu povo, e também receberemos com Cristo aquilo que Deus tem guardado para ele. Porque, se tomamos parte nos sofrimentos de Cristo, também tomaremos parte na sua glória” (Romanos 8.16-17).



Briga de Crente

Para onde quer que olharmos, veremos conflitos: domésticos, familiares, entre vizinhos, entre colegas de trabalho, entre crianças, adolescentes, jovens, adultos, anciãos... Em resumo, a vida é cheia de conflitos, e as pessoas lidam com eles de formas às vezes estranhas.

Por isso houve um desentendimento [רִיב – ribh] entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os pastores dos rebanhos de Ló. Nessa época, os cananeus e os perizeus habitavam aquela terra” (Gênesis 13.7).

A Vulgata traz aqui uma expressão bem curiosa: houve “rixa [palavra bem moderna] inter pastores”. No capítulo 14, se lê que Abraão tinha um pequeno exército – 318 homens – trabalhando para si. Ló também devia ter alguns. Por aí já se vê que os desentendimentos poderiam evoluir para um bate-boca descontrolado, e daí para os dois grupos se engalfinharem em troca de petelecos e pescoções seria um pulo.

Por incrível que pareça, a questão da propriedade da terra acaba por revelar o que está no nosso íntimo. As brigas por causa de herança quase sempre se retroalimentam com o combustível da ganância. Não é raro ver famílias divididas, irmãos afastados, amizades arrasadas... tudo por causa de herança. Lembra que no Novo Testamento um homem se aproximou de Jesus para dizer: “Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lucas 12.13)? Em resposta a esta solicitação foi que Jesus contou a parábola do rico insensato (Lucas 12.16-21).

A palavra hebraica ribh pode significar contenda, controvérsia, disputa, inclusive com a conotação de disputa judicial. Isso nos remete a uma situação lamentável que se alastra no Brasil: crente processando crente; membro de igreja processando o pastor, pastor processando diácono... Que vergonha! Paulo flagrou esse problema em Corinto, e escreveu um capítulo sobre tópico tão incômodo (1Coríntios 6).

Gênesis 13.7 diz então que “houve um desentendimento”. E logo depois dessa informação, Moisés acrescenta uma outra, que, em princípio, nos parece inútil: “Nessa época, os cananeus e os perizeus habitavam aquela terra” Por que disse isso? Provavelmente para lembrar que seria uma vergonha para a família de Abraão, que chega a Canaã falando que existe apenas um Deus, mas não consegue viver em paz. Ficaria extremamente incoerente o bandeirante do monoteísmo guerreando contra o próprio sangue. Como também hoje é fácil para muitos crentes dizerem que são súditos do Príncipe da Paz, mas não é isso que suas vidas comunicam.

Então resta a pergunta: como é que os filhos de Abraão resolvem suas diferenças com as pessoas? Como é que homens e mulheres que dependem do Senhor lidam com os conflitos que surgem em seus relacionamentos?

Uma boa resposta está aqui: abrindo mão do que pensamos ser valioso, em nome de um bem de valor ainda maior, que é a paz. Por isso, o Príncipe da Paz sentenciou: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5.9).



Experimente Cantar um Hino

Hans Staden, como o nome sugere, era alemão, contemporâneo de Martinho Lutero. Jovem, cheio de vida, gostava de viajar. Foi assim que veio parar no Brasil, meio século depois do descobrimento. É uma história longa, que ele mesmo contou em livro, em 1557, que se fez best-seller internacional, sendo traduzido para o latim e várias outras línguas europeias, como francês, inglês, holandês e português. O livro alcançou um total de 76 edições.

É com a história desse alemão que Dona Henriqueta Rosa Fernandes Braga inicia o seu livro Música Sacra Evangélica no Brasil – Contribuição à sua História (Rio de Janeiro et al.: Livraria Kosmos Editora, 1960).

Hans era bom crente e gostava de cantar. Logo no início da colonização do Brasil, fez uma primeira viagem para cá em que ficou pouco tempo. Depois, retornou para se dirigir a Assunção, mas naufrágios sucessivos detiveram-no no litoral paulista, perto de Bertioga. Num triste dia de 1552, segundo alguns, caçando, segundo outros procurando um escravo que saiu para caçar (Braga, p. 33), acabou sendo aprisionado pelos temíveis indígenas da etnia tupinambá. Temíveis porque entre outras coisas praticavam a antropofagia. Eles o levaram para a sua aldeia, onde hoje é Ubatuba.

Nos nove meses em que viveu como prisioneiro, Hans Staden viu a crueldade de perto: prisioneiros portugueses serviam de churrasco aos tupinambás, o que só fazia aumentar o seu desespero, deduzindo que a qualquer momento, ele seria a carne da vez.

É fácil entender por que o sucesso do livro de Staden a partir de sua publicação em 1557. As 76 edições se justificam pelo inusitado da experiência. A descoberta da América era vista pelos europeus como o achado de um paraíso. A prisão - e quase morte - de Staden desconstrói essa visão ingênua. Mas o apelo do inusitado não diminuiu com o tempo. Tanto é assim que em 1925, nosso prolífico escritor, Monteiro Lobato, publicou um livro infantojuvenil, relatando as aventuras de Hans Staden.

A pergunta que o leitor poderia fazer com razão é: como foi que Hans Staden conseguiu não virar churrasco nos panelões tupinambás?

Alguns autores fazem referências esparsas e leves ao cristianismo praticado por Staden. Mas D. Henriqueta é mais objetiva:

...sua grande aflição levou-o a implorar o socorro divino. Orou a Deus e buscou, na recordação de Salmos apropriados, a consolação de que tanto carecia e que lhe foi outorgada. Assim é que, ferido, sangrando e rodeado de selvagens que ameaçavam devorá-lo, Hans Staden ergueu a voz e entoou o Salmo 130: ‛Das profundezas a ti clamo, ó Senhor’… com isso atraindo a atenção dos silvícolas, particularmente propensos à música” (BRAGA, 1960, pp. 33 e 35).

O louvor em si não opera milagres. O Deus, que é louvado, sim. Por isso, Dona Lizzie DeArmond (1847-1936), viúva com oito filhos para sustentar, escreveu esta poesia que Ackley musicou:

Vindo sombras escuras nos caminhos teus,

oh, não te desanimes, canta um hino a Deus!



I Have a Dream

É muito difícil esquecer uma emoção. Eu me lembro da que senti, quando ouvi pela primeira vez uma gravação do famoso discurso de Martin Luther King, “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”).

Era 1977, eu estava dando os primeiros passos no ministério pastoral. Havia uma unidade do Ibeu (Instituto Brasil-Estados Unidos), perto da igreja, que era a Primeira Igreja Batista de Vila Velha, na grande Vitória (ES), meu primeiro pastorado. As aulas eram à tarde, de segunda a sexta.

Era a época em que ser evangélico não dava ibope. Ainda havia no ar aquela atmosfera preconceituosa contra os crentes. Os pastores éramos de todo vistos como possíveis exploradores do povo, uma classe sem muita importância, diferentemente do que acontecia em países considerados protestantes. Nesses, os pastores são tão respeitados, ao ponto de isso ser um aspecto explorado por possíveis imigrantes. Peço vênia para narrar parenteticamente uma história que aconteceu há alguns anos nos Estados Unidos, no setor de imigração de um aeroporto.

Sabedores da boa reputação de que os pastores desfrutam na América do Norte, alguns senhores nigerianos desembarcaram, todos vestidos de gola clerical, de Bíblia na mão, exibindo aquele ar de piedade celestial, desejosos de pisar em solo americano. O funcionário que os atendeu logo suspeitou de alguma coisa errada e os levou para uma sala a fim de proceder a uma inspeção mais minuciosa. Foi direto ao ponto:

Então os senhores são pastores?

Como num coro ensaiado, responderam simulando um ar angelical:

Somos, graças a Deus!

O funcionário voltou à carga:

Então vamos combinar o seguinte: vou contar até três, e quando eu disser ‘três’, todos vocês dirão, juntos, e de cor, o texto de João 3.16. Combinado? Se são pastores, vocês devem sabê-lo de memória. Vamos lá: 1, 2, 3.

Silêncio total! Os tais “pastores” se entreolharam perdidos, sem ter a menor ideia do que o funcionário estava falando. Voltaram pra Nigéria no mesmo avião.

Fechando o parêntese e retornando à aula do Ibeu, a professora Mônica Portugal em certo momento pôs no toca-fita da classe a gravação do discurso emocionante de King, “I have a dream”, pronunciado a 28 de agosto de 1963 perante uma multidão de mais de 200 mil pessoas em Washington. Hoje você pode ouvir essa pérola no YouTube, mas naquele momento distante de 1977, a dicção clara de King invadiu a sala e me cativou. Para os outros alunos provavelmente aquilo não passasse de uma aula a mais, em que novas palavras seriam acrescentadas ao patrimônio vocabular de cada um. Para mim, entretanto, foi uma epifania, como se eu pudesse dizer: Estão vendo? É um pastor declamando o seu sonho de ver brancos e negros convivendo em paz, em que “os filhos de ex-escravizados e os filhos de ex-proprietários de escravizados poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade”. É um pastor, dando a sua contribuição para uma sociedade mais justa. Isso é ser evangélico, isso é ser crente.

Quase meio século depois, a emoção daquela tarde ainda reverbera intacta em minha alma!

P. S. Outra emoção foi a do dia 02 de fevereiro de 2022. D. Ruth Brotto, tesoureira da Primeira Igreja Batista em Vila Velha e professora do Ibeu, enviou esta crônica à professora Mônica.



A Bolha da Celebridade

Já viajei com celebridades ao meu lado. Mas o voo inteiro fiquei de bico calado. Sim, acho que todo mundo tem direito a privacidade. Deve ser horrível para a Xuxa Meneghel ter que ir ao shopping com um exército de marmanjos a protegê-la. Tenho pena dos famosos, que precisam pôr uma máscara sorridente, posar para fotos que não sabem onde vão parar e fingir que não estão chateados com a abordagem.

Tenho pena também dos caçadores de fama. Eles esquecem um dado básico: na terra, toda fama é relativa e passageira. Quer ver só?

No ano 2000, a rainha Elizabeth II foi à Austrália, numa viagem de duas semanas. Na agenda, incluiu-se uma visita a uma escola primária rural a 200 quilômetros ao sul de Perth. A rainha, fiel cumpridora de agendas, lá se foi.

Na escola, foi surpreendida pela dúvida de um pequeno súdito: ‛Quem é você?’, perguntou-lhe um garotinho de três anos.

Tentando se livrar do embaraço que o pequeno súdito protagonizava, a professora explicou que o menino era novo na escola, e que por isso não havia assistido às aulas de História com as quais ela preparara os alunos para a visita de Sua Majestade.

Certamente a rainha, que foi criança, é mãe, avó e bisavó, contornou a situação com um solene “deixa pra lá”.

O episódio com Sua Majestade na Austrália me lembrou o que li certa vez em Jim Herriot, veterinário britânico, que se tornou mais conhecido como contista. E dos bons! Ele estava muito triste, porque naquele dia se anunciara a morte do irlandês George Bernard Shaw (1856-1950), um dos maiores autores do teatro inglês do século XX, cofundador da London School of Economics. Jim foi atender a um fazendeiro que precisava dos seus serviços de veterinário. Chegando lá, disse que estava triste com o falecimento de Shaw. O fazendeiro, sem a menor preocupação em esconder a sua ignorância, perguntou: “Mas quem é esse tal de Bernard Shaw?” Herriot conta que redescobriu ali a verdade de que “toda fama é relativa”.

Parece fazer parte do pacote do pecado o correr atrás da fama. Em suas Confissões, Agostinho admitia viver “perseguindo a aura da glória popular até os aplausos do teatro, os certames poéticos, os torneios de coroas de feno, as bagatelas de espetáculos…” (Livro IV, Cap. 1).

Daqui a cem anos, talvez ninguém se lembre mais do nosso nome, sobrenome, currículo, manias, feitos, conquistas... Debaixo do sol, tudo se dilui, inclusive a bolha da celebridade. Correr atrás dela, diria o Pregador desiludido com a sua própria experiência, é “correr atrás do vento” (Eclesiastes 2.17 et al). Paulo preferia correr outra carreira, a da fé em Cristo, esta sim, de duração eterna (2Timóteo 4.7).



Ensina-me a Morrer

Eu vi um homem de Deus tombar de pé. Foi em 2007, no Rio de Janeiro. Quando os médicos operaram o pastor Manoel Xavier, vendo que não havia mais nada que a medicina dos homens pudesse fazer com aquele câncer, mandaram-no para casa. Teria poucos dias mais de vida. O pastor teve então a ideia de fazer um culto de despedida, reunindo a igreja e os amigos. Era sábado aquele dia 15 de setembro de 2007 em que houve o culto especial, convocado por telefone à tarde e realizado à noite na Igreja Batista Memorial da Tijuca.

Do hospital, o pastor foi direto para o culto, onde pregou uma mensagem que destilava o mais puro evangelho, aquele que reconhece os contornos da nossa temporária condição humana, enfatiza a necessidade de arrependimento aos pés da cruz e aponta para uma esperança além-túmulo, ao lado de Jesus, que venceu a morte.

Cercados de tanto desequilíbrio emocional e histeria litúrgica, como hoje nos encontramos, ver uma igreja lotada chorando baixinho, se despedindo do seu obreiro amado e cantando “Pai, eu queria tanto ver o meu Senhor descer, vindo me encontrar…” mais com a alma que a garganta, foi uma experiência rara nesta vida. Ficou fácil entender por que Pedro quis construir três cabanas quando viu parte da glória do Filho do Homem. Daquele culto ninguém mais queria ir embora.

O evangelho de Jesus é assim: nos ensina a viver, mas também a morrer. Ao deixar evidente que esta vida é passageira enquanto a outra é eterna, Jesus nos instruiu a trabalharmos, investindo no que permanece (João 6.27).

A senhora Bebe Patten (1913-2004), em seu livro Devolva-me a Minha Alma (1972), inédito em português, conta que a famosa catedral de Milão tem três portas. Sobre uma delas há algumas rosas trabalhadas em madeira com a seguinte legenda:

― O que agrada é passageiro.

Sobre outra porta, com letras formadas por espinhos, a inscrição diz:

― O que perturba é passageiro.

Mas à entrada principal existe uma cruz com a seguinte legenda:

― Só importa o que dura para sempre.



A Sequela da Incoerência

São inúmeras as sequelas deixadas pela entrada do pecado na vida humana: a criação geme; o trabalho faz suar; o parto é doloroso; a morte é certa. Creio que podemos adicionar mais uma, esta deixada na mente humana: a incoerência. Paulo apóstolo reconheceu a sua ao confessar: “Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio” (Romanos 7.15, NTLH). Ausência de nexo entre ideias, fatos e ações, a incoerência está presente na vida religiosa de muita gente e foi denunciada por Jesus: “Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo!” (Mateus 23.24, NTLH).

Algumas pessoas são praticantes do que poderíamos chamar de arcadismo espiritual. Na literatura brasileira, o arcadismo foi o movimento criado pelos poetas de Vila Rica, hoje Ouro Preto, em Minas Gerais. Eram eles: Alvarenga Peixoto, Basílio da Gama, Cláudio Manuel da Costa, Manuel Inácio da Silva Alvarenga e Tomás Antônio Gonzaga.

Em seus escritos, além dos temas políticos, os árcades defendiam a vida rural como um ideal maravilhoso: morar no campo, estar em contato direto com a natureza, acordar com a passarada cantando na sua janela… Tudo muito bonito. Mas é curioso o fato de que, embora advogassem esse estilo de vida, eles mesmos não se mudaram definitivamente para o campo. Ou seja, o campo era um ideal, mas para os outros.

Na vida espiritual também convivemos com um certo arcadismo. Há entre nós crentes que com unhas e dentes defendem o Evangelho, os hinos, os crentes, os pastores, as igrejas. Constituem-se em ardorosos advogados da fé. Mas apenas defendem. Porque eles mesmos não se mudam para os campos da fé. Eles mesmos não rompem com a ditadura do pecado. Falam a favor, mas vivem contra. Exaltam as virtudes da luz, mas continuam se abastardando nas trevas. Convém lembrar que Jesus não aceita essa prática. Ele foi radical: “Quem não está comigo, está contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mateus 12.30, A21).

O Senhor dispensa defensores que vivam em cima do muro. Ele quer seguidores no chão da luta.









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