O Copo e o Litro
(Conto de João Soares da Fonseca)
Os dois eram de vidro, o copo e o litro. De repente, como num ataque de insensatez, começaram a bater boca.
O litro, olhando de cima pra baixo, humilhava o copo: “Você é pequeno, copinho sem graça! Não cabe muita coisa em você. Mal colocam água em você, e você já está transbordando. Além disso, olhe o formato que você tem. Coisa mais sem graça. Agora, olhe para mim, bonito, esbelto, alto, atraente. Meu gargalo parece mais o pescoço de uma bela criatura humana, uma mulher elegante. Tenho o perfil de uma modelo. Morra de inveja, nanico. Sabia que quem nasceu para ser copo nunca chegará a litro?”
O pobre do copo, tentando olhar o litro de igual para igual, gagueja a sua tentativa de resposta: “Como assim? Você está querendo me humilhar? Eu estou aqui, quieto no meu canto, e você, a troco de nada, vem perturbar a minha paz! Por que esse ódio gratuito? Que te fiz eu? E você está esquecendo que viemos do barro!”.
“Que agredir o quê, rapazinho? A verdade dói, né? Somos do mesmo material, mas não somos iguais: eu tenho nobreza, sou bonito, imponente... Transporto vinhos famosos, perfumes importados. Sou presença obrigatória nas mesas dos ricaços. É porque tenho “presença de palco”, e você, quem é? Um pobre copo, desprezado, que não sai da boca murcha dos pobres”.
De repente, enquanto essa conversa deseducada prosseguia rumo a lugar nenhum, o chão começou a sacudir. Aquela região, propensa a terremotos, viu nesse dia um dos abalos mais assustadores. Foi tão intenso, que a mesa vibrou mais do que o copo e o litro podiam suportar. Os dois inicialmente tombaram sobre a mesa mas em seguida foram igualmente lançados ao chão, espatifando-se contra o cimento duro, que também se esfarelava diante do impacto sísmico. Lançados ao chão, os dois foram esmagados pelas paredes, o forro, o teto, e tudo o mais, que caiu sobre eles, interrompendo-lhes a fala tola.
Um dia, copos e litros virarão cacos, apenas cacos.
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