Evolução do Cristianismo
(Conto de João Soares da Fonseca)
Fontes desencontradas e contraditórias afirmam que um importante jornal árabe publicou um artigo sobre o sucesso de uma igreja brasileira: a Igreja da Corrente Pra Frente. De mão em mão, o jornal acabou chegando ao esconderijo de Osama Bin-Laden, que leu tudo, riu maldosamente, deu uma cusparada que, sibilando, atravessou a sala, e disse aos assistentes:
— Esse é o homem!
— É pra eliminar quando, chefe?
— Eliminar nada; é o enviado para nos ajudar.
Depois de meses de negociações nos bastidores, o mais procurado terrorista internacional e o mais famoso exorcista brasileiro, fundador e chefe da Corrente pra Frente, concordaram em se encontrar secretamente num aposento de hotel de alto luxo em bilionário reino islâmico. Depois dos salamaleques de conveniência, utilizando sempre os serviços de um intérprete, os dois conversaram demorada e amistosamente. Parecia que se conheciam a vida toda. Mais tarde, um resumo da conversa foi divulgado pelo intérprete, com a condição de não ser identificado:
Bispo: Puxa, foi difícil encontrá-lo. Onde o senhor aprendeu a se esconder tão bem assim?
OBL: Alá é generoso, irmão de longe. Ele me enviou um anjo, que me deu todas as instruções! Tenho um mapa do meu refúgio, escrito com letras do paraíso.
Bispo: Que estranho! O seu caso é muito parecido com o meu; foi um anjo também que me apareceu e me deu as instruções sobre a nova igreja que deveria ser criada a partir do Brasil para conquistar o mundo.
OBL: Li na reportagem. Mas não deve ser o mesmo anjo, porque o meu falava comigo sem intérprete.
Bispo: O meu também!
OBL: Ah é? Então há anjos que falam árabe e anjos que falam espanhol… Desculpe, qual é mesmo a sua língua?
Bispo: Português. Deve haver anjos bilíngues, poliglotas… não sei bem; anjos não é minha especialidade. Sou formado em demoniologia.
OBL: Claro, eu sei. Foi por isso que mandei te chamar. Eu sabia que sendo você perito em demônio, eu poderia ser beneficiado por esse teu conhecimento.
Bispo: Como assim? Você está preocupado com o demônio?
OBL: Claro que estou. Ou você acha que é fácil viver fugindo dele?!
Bispo: Nós não fugimos de demônio nenhum; pegamos o touro na unha.
OBL: Na unha não sei; mas na cauda, talvez; isto é, se essas criaturas tiverem cauda. Você é que deve saber.
Bispo: Cabeça, cabeça. Demônio tem que ser ferido na cabeça. É o teu calcanhar esmagando a cabeça dele.
OBL: Só por curiosidade, por que essa fixação com o demônio? Eu tenho minhas razões, mas você?
Bispo: Cada terra tem o seu demônio, servo de Alá! Aliás, estamos até finalizando a produção de um novo mapa-múndi, identificando o demônio de cada pedaço do planeta. O seu, por exemplo, é poderoso, aparatoso, valentão, e por concentrar tanto poder, acaba se tornando visível demais, daí ser alvo fácil. Já os nossos são dissimulados como bordel em bairro de família, como foliões no Carnaval. Quando você pensa que é um homem, é uma mulher; quando você pensa que é mulher, é um travesti. Quando se espera que ele seja um ateu, ele se persigna todo. Você olha e diz: Está morto. Aí ele se levanta e te ataca. Se você o fotografa, ele aparece, mas sempre fora de foco…
OBL (como se escarnecesse): É bem difuso o teu mal!
Bispo: Amorfo como o vento, imprevisível como um vagabundo, oportunista como a água, desacreditado como um político, imbecil como um poste, ardiloso como… como…
OBL: Está bem, está bem; já deu pra ter uma ideia dos teus poderes retóricos e também dos teus demônios! Mas e os meus?
Bispo: Como assim?
OBL: O que podes fazer para me desatormentar?
Bispo: Fácil; é só amarrar.
OBL: A mim? Isso nunca! Sou sócio do vento, um eterno filho da liberdade.
Bispo: Não, beduíno, ao demônio.
OBL: Amarrar demônio? Deve ser mais fácil derrubar arranha-céus!
Bispo: Não discuto; trata-se de uma operação espiritual complicada.
OBL: Mas o que não é complicado quando se fala de demônio?
Bispo: Em primeiro lugar, deves obedecer à vontade de Deus.
OBL: Bom, isso eu já faço; tudo o que faço é em obediência a Alá.
Bispo: Em segundo lugar, a obediência deve ser concreta, traduzida em sacrifício, está me entendendo? Porque quando você investe contra o demônio, o retorno é garantido.
OBL: Isso também é fácil. Sacrifício ninguém faz mais que a gente. Dar a vida por Alá para nós é privilégio.
Bispo: Não exagere; estou falando de investimento. Dinheiro. Maçare, como vocês dizem.
OBL: Isso também é fácil de entender. Afinal, a Organização vive de doações.
Bispo: Doações… doações… não é bem a palavra. Eu diria antes investimento. Doações lembra esmola leve. Investimento tem mais peso.
OBL (espremendo os olhos): E de quanto teria que ser este meu… investimento?
Bispo: Varia de acordo com o tamanho da bênção que se deseja alcançar e o grau de dificuldade que o demônio apresentar.
OBL (com alguma impaciência): Por todos os camelos, soas como um príncipe saudita! Seja objetivo, irmão de longe.
Bispo: Desculpe, é o meu jeito; estou tentando ser claro. Se a bênção é apenas espantar o demônio, o preço é um. É o mais barato. Mas você sabe: demônio espantado nunca esquece o caminho de casa; acaba retornando. Se é afugentar para outras terras, é outro preço, variando com a distância para onde se queira mandar o bicho; e também tem suas desvantagens. O melhor mesmo é encomendar o item 3, amarração total. Feito por profissionais, serviço garantido.
OBL: De quanto tempo vocês precisam para fazer o serviço?
Bispo (olhando a distância pela janela, como quem faz cálculos importantes): Sete dias e sete noites!
OBL: E o preço desse serviço?
Incomodado com a presença do intérprete, Bispo preferiu chegar aos ouvidos de OBL e cochichou alguma coisa. Com um muxoxo, OBL deu a entender que não entendeu nada. Apontou para uma folha de papel. O Bispo pegou um lápis e escreveu qualquer coisa. OBL olhou, olhou, olhou de novo e depois, via intérprete, perguntou:
OBL (estupefato): Mas… é tudo isso?
Bispo (com maldade): Estamos falando de… demônio, não é irmão? Não é o item 3 que você quer?
OBL coçou o turbante. Uma decisão importante seria tomada. Esbravejando como se cuspisse camelos, ordenou que o intérprete se retirasse. Os dois cavalheiros haviam chegado ao ponto em que não precisavam mais da mediação do idioma para negociar. Ficaram nisso por uma meia hora. Números eram escritos, riscados, reescritos… Por fim, a porta do quarto se abriu. O bispo pegou a pesada valise e foi embora. OBL ficou olhando pela janela do belo hotel até ver o carro que transportava o bispo desaparecer na monotonia do horizonte do deserto. Aliviado como quem tem um peso retirado dos ombros, OBL deixou escapulir uma frase que o intérprete não soube dizer se foi dita com ironia ou surpresa:
— Quem diria que o cristianismo fosse evoluir tanto!!!
Se OBL fechou ou não o negócio, não ficou claro ao intérprete naquele momento. Mas, coincidência ou não, sete semanas depois, 49 pastores da Igreja da Corrente Pra Frente — só homens — desembarcaram em Washington e foram direto pra Casa Branca. De calça preta, camisa branca e gravata azul, ficaram todos em vigílias e jejuns por sete dias e sete noites plantados diante da fachada da Casa Branca de olhos fixos no edifício.
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