Bule-Bule
(Conto Infantil de João Soares da Fonseca, para Elly e Sissy, em 1992)
Era uma vez um anãozinho muito engraçado chamado Bule-Bule. Tinha esse nome porque só andava aos pulinhos e dizendo: “Bule-Bule, Bule-Bule…”. Era querido por todos. Por isso, as pessoas gostavam de brincar com ele. Por exemplo, os homens da aldeia sempre que o viam, jogavam uma moeda longe para vê-lo sair aos pulinhos para ir buscá-la. Lá ia ele: Bule-bule, bule-bule…
Mesmo tendo muitos amigos, Bule-Bule era infeliz. Ele não aceitava ser anão. Seu desejo, ao contrário, era ser um gigante, dizia, pra poder beijar a lua e fazer um carinho nas estrelas. Mas Bule-Bule era muito envergonhado e não queria que as pessoas soubessem do seu desejo. Longe delas, ele chorava porque não era um gigante.
Um dia, enquanto chorava apareceu-lhe um urubu e lhe disse:
— Bom dia, amigo. Que há de errado com você, rapaz? Chorando desse jeito?
Bule-Bule tentou disfarçar que chorava. Fez um biquinho e atacou:
— O que você quer, seu urubu nojento? Ainda estou vivo, pode ir embora. Quando eu morrer, você vai saber. O urubu tentou dar um sorriso, mas como não sabia fazer isso, não conseguiu. Apenas disse:
-— Calma, Bule-Bule. Me conta tudo, que vou te ajudar. E prometo que não vou fofocar com ninguém. Palavra de urubu!!!
Bule-Bule achou que podia confiar:
— Sabe o que é, amigo urubu, eu sou um anão, como você está vendo. Mas eu queria mesmo era ser um gigante. Um gigantão, entende?
O urubu gostou da ideia, porque, afinal, um gigante é sempre mais carne que um anão. O urubu tentou sorrir de novo mas de novo não conseguiu. Mas deu a Bule-Bule uma sugestão:
— Pare com essa choradeira. Eu, o seu amigo urubu, tenho a solução. Você sabe, eu conheço todo este país. Por sobrevoar esta terra, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, fazendo uma parada em Brasília, eu sei das coisas. Então é só me obedecer, que dá certo. Faça o seguinte: Quando a noite chegar, vá à Lagoa da Morte, bem no meio da Floresta Sem Graça. Não tenha medo. Junto da lagoa, você encontrará um espinheiro. Corte alguns galhos e com eles faça um chá. Beba sete xícaras desse chá e vá dormir. Quando você acordar, nem vai acreditar: Será um gigante, o maior gigante do mundo.
Bule-Bule arregalou bem os olhos e disse:
— Você está brincando! É verdade? Que beleza! Saiu dando pulinhos e cantarolando:
Sou pequeno, bem pequeno,
anãozinho infeliz.
Mas me tornarei gigante,
o maior do meu país.
A floresta estava escura quando Bule-Bule chegou lá. Sons de perigo ameaçavam de dentro do mato. Tremendo de medo, Bule-Bule chegou ao lugar designado pelo urubu. Com dificuldade quebrou alguns galhos do espinheiro e os levou para casa. Naquela noite mesmo, o pequenino homem tomou o chá sugerido pelo outro e dormiu. Mas não dormiu apenas aquela noite. O chá do tal espinheiro fez Bule-Bule dormir durante dez anos.
Bule-Bule perdeu dez anos de sua vida. Dez anos sem ver a beleza do sol nascendo ou se pondo, sem o clarão da lua cheia, sem o pisca-pisca das estrelinhas que ele tanto amava, dez anos sem nadar nos rios, sem correr pelas estradas, dez anos sem dar os seus pulinhos e sem dizer bule-bule. Muitos bons amigos morreram nesse tempo. Bule-Bule passou um fim de semana inteiro chorando, quando soube que sua professora era uma dessas pessoas. Além de não ter crescido nesse tempo e de não ter visto o mundo passar nem os amigos partir, Bule-Bule ainda teve que conviver com uma horrível dor nas costas. Tudo por causa do conselho mentiroso de um urubu desalmado.
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