Amor Demais
(Conto de João Soares da Fonseca)
Foi assim: Jacó, de 16 anos, vivia sonhando acordado. Sonhava que a felicidade devia existir mas não estaria perto de sua cidade. Devia existir, sim, mas lá longe, no Rio de Janeiro, em Londres, em Paris, talvez em Nova York.
Jacó conheceu Raquel, que tinha apenas 13. Raquel parecia uma boneca de louça: linda, simpática, sorridente…
Viram-se e amaram-se de imediato. Os olhos de ambos se procuravam no meio da multidão, que se reunia semanalmente na comunidade.
O amigo de Jacó, que se chamava Átila, namorava a amiga de Raquel, que se chamava Priscila. Quando anoitecia, os quatro ficavam cuidando do futuro na casa de Priscila. As horas voavam, de tão bom que era.
Jacó e Raquel ficavam sentados na escada de três degraus que dava acesso à varandinha da casa simples. Mas não ficavam apenas se entreolhando como se fossem dois idiotas desocupados. Eles também olhavam as estrelas e pensavam como estavam distantes! Uma lâmpada de frouxa luz ficava acesa por cima da cabeça dos pombinhos, como se fora um foco de luz apenas neles. O restante do quintal ficava às escuras. O céu continuava estrelado por cima deles, distante deles.
Logo que entendeu ser possível, Jacó sentiu o desejo irresistível de beijar Raquel. Era a primeira vez que ele faria isso em toda a sua longa vida de dezesseis anos. Era a primeira vez que ela faria isso também em sua vida de treze. Raquel seria a primeira mulher neste mundo que Jacó beijaria. E ele, o primeiro homem que ela beijaria também. A tentativa, porém, foi desastrosa. Ele ia, ela não vinha. Oh, quão virtuosa é a ingenuidade!
Jacó teve então uma ideia:
— Meu amor, vamos fazer uma coisa?! Eu vou contar até três, e quando chegar a três, a gente fecha os olhos e gruda os lábios um no outro, de leve, que acha?
Raquel riu baixinho, achando engraçada aquela proposta, mas concordou. Afinal, estava ansiosa por beijar também. Ele contou: “Um, dois, três e já!”. Seguiram o roteiro combinado. Beijaram-se devagar e demoradamente. Como dizem os alemães: “Sem pressa, mas também sem parar”. Houvesse por ali um cronômetro, alguém poderia arriscar dizer que cada beijo durava quase meia hora.
Enquanto se beijavam, o mundo girava lentamente em torno deles. A lua sorria por cima deles. As estrelas, envergonhadas, pareciam dar-se as mãos, fechando os olhos e lhes desejando boa sorte. O céu e a terra simplesmente se uniram e atravessaram a eternidade. Jacó se apaixonou por Raquel. Raquel por Jacó. E juravam que nunca mais se esqueceriam um do outro.
Quando o beijo chegava ao fim, os dois tentavam conversar:
— Você viu?
— O quê?
— A lua sorrindo pra gente!
— Como poderia ver, se meus olhos estavam fechados?
E riam como duas crianças, de tanta felicidade.
Acontece que um amor que se queira de raiz e de seiva não vive apenas de beijos de meia hora, banhados pela indiscrição da lua. O pai de Raquel queria para a sua filha um casamento que pudesse, no mínimo, garantir o mesmo nível de qualidade socioeconômica que a tradicional família Setúbal proporcionava aos seus integrantes. Coincidia, por outro lado, que Jacó não passava de um pobretão, filho de uma lavadeira, oriundo de família sem nome, sem terras, sem fama, sem passado, sem presente e tudo indicava que também seria sem futuro. Afinal, mesmo não estando registrado em código algum, sabe-se que sem dinheiro na terra dos homens, ninguém vai muito longe. O princípio teórico de que “todos são iguais perante a lei”, de infinita beleza jurídica, se relativiza, na prática, diante da presença ou da ausência do vil metal.
Uma outra circunstância acrescentou outras sombras ao futuro do relacionamento de Raquel com Jacó. Embora comparecesse esporadicamente a algumas reuniões da comunidade, Raquel não era protestante. Tios e tias, uma vez cientes do envolvimento da mocinha com um jovem protestante, deram início a uma guerra surda porém sistemática e sem tréguas contra o envolvimento emocional de sua sobrinha. Revezavam-se num bombardeio verbal impiedoso junto à mãe de Raquel para lembrar que a família Setúbal era “católica de origem”. A pouca idade de Raquel não lhe permitia saber se defender da veemência dos argumentos da família.
O romance de Átila e Priscila não teve fôlego sequer para comemorar um ano e chegou ao fim. Ainda assim, Jacó e Raquel continuaram se beijando infinitamente.
— Tatuei o seu nome no meu coração, — disse Raquel num lindo sorriso.
Jacó achou a frase soberba, mas não teve coragem de perguntar se era dela ou se copiara de alguma amiguinha da escola.
A pobreza de Jacó e a ingenuidade de Raquel não conseguiam protegê-los de tanto ataque. As tias ficavam o tempo todo advertindo Raquel: “Não vá para a igreja protestante. É uma igreja amaldiçoada pelo Papa. Nosso Senhor era católico. Você é católica apostólica romana. Lembre-se que temos até um padre na família em Portugal, e nossa religião é do tempo de Cristo e dos santos apóstolos. Os protestantes não respeitam a Virgem Maria”.
Raquel ouvia tudo, mas o bom relacionamento que tinha com as tias a impedia de sequer preparar uma argumentação. Entre um beijo e outro, contava tudo a Jacó, mas os dois jamais se deram ao trabalho de decompor as ameaças avunculares e ensaiar uma resposta que pudesse oferecer algum futuro à relação.
As tias chegaram à conclusão de que falar de religião era pouco. Então resolveram baixar o nível. “Cuidado, não vá se sentar no lugar de que ele saiu. Vai pegar filho. Os protestantes são amaldiçoados pelo Papa. Não queira se contaminar. E filho de protestante, você sabe, tem parte com o cão. Nascem aleijados, cegos… Seria a maior vergonha para a família Setúbal.”
Raquel e Jacó, em nome da paz, concordaram em se separar por algum tempo. Ele estudou Direito e foi advogar. Ela, seguindo seu faro linguístico, tornou-se tradutora juramentada de português-italiano. O tempo passou, e ela acabando – quem diria? – se casando com Átila. E foram felizes durante toda a lua de mel.
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