Casaco Impermeável

(Conto de João Soares da Fonseca)


Em 1976, éramos três recrutas no quartel do Exército, na Rua Barão de Mesquita: Billy Bauru, Mata-formiga e Maozinho. Billy Bauru e eu éramos de São Paulo. Mata-formiga era da favela da Formiga, no Rio. Maozinho me chamavam porque diziam que eu era a cara do Mao-Tsé Tung, que ainda governava a China. Mesmo sendo eu nissei, para o olho brasileiro não treinado não há diferença entre chineses e japoneses.

Eu detestava o apelido, odeio o comunismo, mas aprendi que com apelido se lida assim: você finge que não ouve, mas responde se te chamam.

Combinamos de ir ao Maracanã ver duas seleções jogando: o Flamengo contra a Seleção Brasileira. Anedótico? Parece, mas é verdade.

Era uma noite fria a daquela quarta-feira, 06 de outubro de 1976, e o jogo era beneficente. Dias antes, morrera Geraldo, jogador do Flamengo, numa cirurgia boba de extração das amígdalas. Cirurgia boba é maneira de dizer, porque com o tempo a gente descobre que na vida não há cirurgia boba.

Os três recrutas fomos a pé até o estádio, já que servíamos e morávamos no quartel, a poucas quadras do Maracanã.

Confesso que nunca vi tanto ser humano aglomerado. Um jogaço como aquele atraía mesmo as multidões. De um lado, o Brasil de Pelé, Jairzinho, Rivelino, algumas das feras do Tri, de 1970. Do outro, reluzia a estrela de Zico no auge de seu esplendor. Não poderiam faltar as autoridades: prefeito, governador, e até o General Ernesto Geisel, o presidente da hora, todos se acotovelando na tribuna de honra.

Já no final do primeiro tempo, minha bexiga sinalizou que estava pronta para dar início à operação de esvaziamento. Outra parte de mim, conhecida como cérebro, telepaticamente me enviava mensagens, que, resumidas e traduzidas, queriam dizer: “Isso não vai dar certo”.
Simplesmente porque o mar de gente à nossa volta não permitia locomoção de espécie alguma. Os banheiros mais próximos ficavam em outro planeta. Minha bexiga começou a bater com mais força à porta, como quem é perseguido e pede socorro diante de uma porta fechada.
No intervalo entre os dois tempos, alguns jogadores subiram à tribuna para homenagear os políticos presentes. E se em ocasiões normais essas homenagens parecem eternas, muito pior numa situação nos subúrbios da emergência, com uma bexiga mal-educada e reivindicadora intransigente de seus direitos.

Depois da eternidade dos rapapés e mesuras do ofício das bajulações de praxe, reiniciou-se a partida. Billy Bauru foi o primeiro a perceber meus joelhos se desentendendo, batendo um no outro de forma vergonhosa, num sinal evidente de ultimato que a bexiga sobrecarregada repassava ao resto do organismo.

Que foi, Maozinho?

Nada, é só uma bexiga intoleravelmente cheia.

Ih, rapaz. E agora? O segundo tempo só está começando. Vê se consegue aguentar aí!

Mata-Formiga se inteirou do drama, olhou para um lado e outro e sentenciou gelidamente:

Vai ser difícil ir daqui pra qualquer lugar!

As palavras deles não me serviram de consolo de nenhum tipo. Minha bexiga as ignorou solenemente.

Dez minutos do segundo tempo. Quinze, vinte, vinte e cinco…

A esta altura, nem a fama de Pelé, nem os dribles de Zico faziam o menor sentido. Não tinham a menor graça para uma bexiga em apuros. Ela os desprezou com uma pontada de agressividade: ameaçava despejar em qualquer lugar o conteúdo que lhe tirava a alegria de viver. Há urgências que não podem ser ignoradas ou adiadas. Alguma solução eu precisava dar àquela crise.

Uma luzinha se acendeu na minha cabeça. Olhei fixamente para o casaco de Billy Bauru. Era, ou assim me parecia, impermeável. Se urina é líquida, e um objeto impermeável retém o líquido, meu cérebro, querendo socorrer sua companheira de trabalho, a bexiga, concluiu que aquele casaco era providencial.

No sufoco, fiz uma proposta a Billy, e ele a recusou crivado de certezas, sem se dar ao trabalho de raciocinar.

Tá maluco, rapaz?!

Maluco não estava, mas desesperado, sim.

Trinta minutos… e meus joelhos já se entrechocavam escandalosamente. Minha bexiga disparou um alarme que, creio, o Maracanã lotado deve ter ouvido. Era agora ou nunca.

Billy, finalmente concordando em me socorrer, arrancou o casaco e me deu. Era a sua boa ação naquele dia e talvez a de muitos dias ou meses.

Mirei um bolso que se me afigurava mais fundo, e abri as comportas do socorro à minha paciente-mas-nem-tanto bexiga.

Ah, o alívio daquela operação passeou por meu rosto, soprando nele como aragem de verão.

De repente, porém, o rapaz, sentado praticamente junto aos meus pés, se levantou e me encarou. Olhei para trás também, como se aquela cachoeira viesse de fonte mais distante, mais de cima. O pequenino filete líquido foi abrindo caminho arquibancadas abaixo, para gáudio de minha bexiga.

Até hoje não sei o que falhou na operação: se a impermeabilidade era apenas aparente, se o bolso estava furado ou se o conteúdo era maior que o continente. Só o que sei é que devo um casaco a Billy Bauru.


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