Amor se Leva na Bolsa
(Conto de João Soares da Fonseca)
Reencontrar Helena me mostrou que a vida tem futuro na terra, embora não haja justiça debaixo do sol, porque o tempo não passa pra ela. Desde a conclusão da Filosofia que não nos víamos. E ela continua a mesma de duas décadas atrás. O rosto belo e o perfil de atleta se casaram nela e tanto deslumbram agora como deslumbravam há vinte anos.
O reencontro se deu após um culto na igreja. Era noite, e eu perguntei, depois do abraço:
— É aí, me fala. Continua em Portugal?
— Sim, Lisboa. Como lá dizem, “Quem não viu Lisboa não viu coisa boa”.
— Voltou de vez?
— Nada. Só vim ver a família e comemorar os 90 anos de mamãe.
— Como está a vida do outro lado do Atlântico?
— Muito boa. Não troco Portugal por nada. Quando o euro fincou ali sua bandeira, a vida só fez melhorar. Morro por lá, pode crer.
— Creio.
Helena falava com uma confiança que, se existia durante os anos da Filosofia, eu não percebia.
— Casou?
— Que nada! Amo minha liberdade. Tenho muitos amigos portugueses, outros tantos brasileiros que vivem por lá, alguns árabes... Helena fez uma pausa, respirou fundo e completou:
— E tenho a minha cachorrinha.
— Ah é? Que bonito!
— Quer conhecê-la?
Sorri sem graça antes de perguntar:
— Como assim? Ela não ficou em Portugal?
— Nada disso. Veio comigo. Quer vê-la agora?
— Agora? Mas... Via satélite?
— Não, bobo. Quando eu digo Agora, é Agora. Ao vivo.
E virou-se de lado, mostrou a bolsa de mulher que trazia a tiracolo, levantou uma espécie de tampa, e lá estava a criatura, um exemplar da raça chihuahua, de olhinhos bem vivos.
Arregalei os meus e explodi:
— Gente, um “cão de colo”! Quanta disciplina! Ela estava no culto com você? Você quer dizer que ela passou todo o tempo da reunião em silêncio? Como você conseguiu tanta disciplina?
Sorrindo vitoriosa, Helena explicou sem sofisma:
— Quando chegamos, eu tive uma conversa séria com ela. Olhei nos olhos dela e disse com amor mas com firmeza: “Querida, vamos participar de um culto. Se você der um pio que seja, vai ficar sem ração por muitas horas, talvez dias”. E aí está ela. É ou não é um amor?
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