Como Dizer Encrenca em Russo
(Conto de João Soares da Fonseca)
De Metrô no Rio de Janeiro, da estação final Uruguai (ou inicial, dependendo do ponto de vista) a Copacabana, a viagem dura uma hora. Então levei comigo um livro, poupando a bateria do celular para as emergências da vida.
De repente, perto da Estação Estácio, uma senhora ao meu lado, de robusta compleição, interrompeu-me a leitura para perguntar:
— Desculpe, mas o senhor está lendo um livro em russo?
Colhido de surpresa, retirei a cabeça de dentro do livro, livrinho na verdade, e respondi:
— Não diria ‛lendo’, mas estudando essa língua, que, dizem, ser até fácil, se você conseguir ultrapassar a barreira do alfabeto.
Com admirável curiosidade, indagou: — Mas por que o senhor quer aprender russo? Se ainda fosse alemão, francês...
— Essas aí eu já conheço, mais que o alfabeto até, que graças a Deus, não tem as pegadinhas do alfabeto cirílico.
— Desculpe, mas o senhor não me respondeu — advertiu-me a rechonchuda senhora, com um tom de voz que denunciava a aproximação de alguma coisa grave.
— Ah, desculpe, pensei que tivesse deixado óbvio que gosto de idiomas.
— Ah é? Está querendo me enganar? Eu não nasci ontem, meu senhor. Com essa guerra imbecil, aquele desgraçado do Vladimir Putin deve estar espalhando agentes secretos pelo mundo. Vamos, confesse: o senhor é um deles, é ou não é? O terno é pra disfaçar.
Respondi tão calmamente quanto possível, mas por dentro algo como uma chama se acendeu:
— Minha senhora, eu não a conheço, a senhora não me conhece... nem conversamos o suficiente para a senhora tirar conclusões a meu respeito que, francamente, soam como tolice das mais estúpidas.
— É agente secreto, sim, senhor. Pode confessar. Inclusive a sua resposta… Respondeu bem do jeito que eles respondem. Repito: eu não nasci ontem.
E em seguida, se levantou, levantou a voz para que o vagão inteiro a ouvisse:
— Pessoal, vejam este desgraçado aqui. É agente secreto do Putin. Está aqui lendo um livro em russo. Cadê essa droga da segurança do Metrô quando a gente mais precisa dela?
A madame rechonchuda fez um escândalo tão grande, que outras pessoas se aproximaram dela, compraram-lhe a versão e, vociferando contra mim, de dedo em riste, me ameaçavam:
— Tu vai ver, mané! Trabalhando pra esse puto!!!
— Vamos levar ele pro Manelão ali da comunidade, estamos perto. É a próxima estação.
Eu já não sabia mais o que dizer, tentando desfazer o equívoco, tentando pedir calma, mas no tumulto, as palavras morriam-me na garganta. Tudo o que conseguia gaguejar era: — Esperem, esperem, não é nada disso. Está havendo um erro aqui.
Para meu alívio, ou desespero, chegaram dois exemplares da segurança, e gritaram:
— O que está havendo por aqui?
A madame rechonchuda se encheu de razão por ter levantado o fio de uma rede internacional de espionagem: — O caso aqui é sério, — gritou ela para os seguranças. — É um caso para a Interpol. Acionem o Ministério da Justiça. Rápido!
Os guardas, sem nada entender, me olharam de cima abaixo e, como eu estava de terno, se limitaram a dizer:
— Vem com a gente, doutor.
Apreciei sair daquele alvoroço sem sentido e fui seguindo o primeiro deles. O outro vinha atrás de mim.
No escritório, pediram que eu explicasse tudo. Contei a eles o que contei ao leitor. Pediram-me documentos. Abriram um caderno grande, de muitas folhas, e registraram alguma coisa.
— Salvador del Cima. É isto mesmo? Isto não é um nome russo?
— Espanhol. Sou neto de espanhol.
Um deles foi lá dentro, tirou cópias xerografadas, voltou. Tudo não passara de um mal-entendido, concordaram os dois e me liberaram, ainda que sem pedir desculpas. Seria esperar demais das nossas autoridades.
Refeito do susto, eu já atravessava a porta para retornar à plataforma e retomar minha viagem, quando vi madame correndo na minha direção, gritando:
— Não o deixem escapar. Alguém se comunique com a Interpol. Seguranças incompetentes! Esse Metrô não vale nada! — E foi de novo derramar sua versão delirante aos pobres dos seguranças.
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