Conto de Geremária

(Conto de João Soares da Fonseca)

Trazida do norte da Bahia para trabalhar em casa de paulistano bem de vida, Geremária mal conseguia assinar o nome. Morria de vergonha por isso, sim, mas se intimidava ainda mais quando tinha que dizer seu nome a alguém. Rodeada de paulistanas saradas e vistosas chamadas Patrícias, Danielas, Fernandas, Luízas, Letícias, Lauras, Sandras, Stelas e Rosanas, Geremária se encolhia toda, por dentro e por fora, quando lhe solicitavam o nome.

Um dia, perguntou à patroa se era possível mudar de nome.

Mas por que isso, Geremária? Você não gosta do seu nome?

Odeio, dona Júlia, odeio. E a senhora por favor me diga com toda sinceridade: já viu alguma outra Geremária nesta vida?

Com toda sinceridade, sinceridade, não. Mas que importa isso, minha filha? É a vida da gente que vai fazer a diferença. Dependendo de como se vive, o nome será uma glória ou uma vergonha.

O meu já é uma vergonha.

Que nada, — desconversava D. Júlia. — Você não vê por exemplo o nome Judas? É um nome de significado até bonito. Quer dizer louvor, elogio. É um nome muito usado entre os judeus. Mas você já encontrou algum Judas Ferreira da Silva por aí? Não, porque o que Judas fez a Nosso Senhor jogou lama no próprio nome. Virou sinônimo de traidor. É por isso que as pessoas dizem: É um Judas. Já pensou se, num descuido, os pais põem no filho um nome desses? Aí o menino cresce e vai pra escola. À hora do recreio, as crianças se ajuntam para brincar. Mas ninguém quer brincar com Judas. É o peso do nome. Outro exemplo fácil é o de Hitler. Você conhece algum Hitler Ferreira de Souza?

Parece que a senhora tem razão. Até onde sei, Geremária é nome limpo. Mas eu morro de vergonha de dizer que esse é o meu nome. E se eu mudasse para Jerusa? Adoro esse nome. Se tivesse uma filha, colocava o nome de Jerusa. Será que o Dr. Nelson não poderia ajudar na troca do nome?

D. Júlia disse que falaria com o marido que, sendo advogado, sabia das coisas e tinha bons contatos.

O tempo foi passando, e Geremária já respondia Jerusa quando lhe perguntavam o nome. A burocracia correu por conta dos contatos do Dr. Nelson.

Alguns meses depois, D. Júlia abordou Geremária para lhe falar que tinha boas notícias. Que brevemente seria possível apanhar o novo documento que trocava Geremária por Jerusa. Ao ouvir tudo o que D. Júlia dizia, Geremária não só não se alegrou como não conseguia esconder a confusão em seu semblante.

O que houve, minha filha? Não era isso que você queria?

Era sim, D. Júlia. Mas será que não haveria um nome melhor que Jerusa?

Mas você disse que achava tão bonito esse nome, que se tivesse uma filha… lembra?

Lembro, claro. Mas agora estou em dúvida: toda vez que respondo que meu nome é Jerusa, a pessoa ri e diz: Jerusalém. Será que o Dr. Nelson não brigará comigo se deixar Geremária mesmo?


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