O Engraxate

(Conto de João Soares da Fonseca)

Fazia tempo que eu não engraxava os sapatos. O conforto de só andar de tênis me afastou dos profissionais descontraídos, que são os engraxates, tão encontradiços em outras eras.

Ao ver aquele senhor de paletó e gravata, bem-humorado, anunciando promoção, olhei pra baixo e vi que o pisante precisava de um capricho. Como quem é atraído a fazer um grande negócio, subi os dois ou três degraus e sentei-me no trono dos fregueses do senhor de paletó e gravata, achando graça que ele se vestia de um modo tão formal para fazer um trabalho tão braçal. Não que eu tenha qualquer preconceito contra o paletó e a gravata ou contra a profissão de engraxate, mas é que não é comum ver os dois entes se interrelacionando.

Cauteloso, pôs as proteções laterais e tocou a dar tinta, cera e esfregação. Ele trabalhava e conversava com alguém do lado. Não é do meu feitio ficar escutando conversa dos outros, lição que aprendi na infância, ou com meus pais ou na escola, não me lembro. Mas de repente, o conteúdo da conversa subiu até mim e me interessou:

O cara ficou chateado porque eu disse que o preço da graxa aqui era 50 reais pra ele.

Fingi que não escutei, porque achei o preço um absurdo, algo totalmente fora de propósito, e ele não devia estar se referindo a um engraxamento normal, como aquele a que eu me submetera. Entendi ser prudente e favorável ao meu bolso ignorar aquela conversa. Infeliz quem se estressa com a conversa que apenas entreouve.

Acabado o serviço, levantei-me, desci os degraus, os sapatos pareciam recém-saídos da loja.

Quanto foi aí o serviço, amigo?

Como hoje é promoção, paga só 120 reais.

O quê? Você quer dizer 20?

O senhor ouviu bem: 120 reais. Aceito cheque, cartão de crédito, aceito tudo.

Para que as gerações futuras tenham ideia do tamanho do desfalque de que eu ia sendo vítima, 120 reais naquele momento equivaliam à merreca de 30 dólares americanos.

Você está maluco, rapaz? Onde já se viu, 120 reais para dar uma engraxada! É o que eu pago lá em casa à diarista, que, como o nome diz, trabalha o dia todo. E você, em 10 minutos quer ganhar o que ela ganha por dia?

Está vendo? — virou-se para o seu interlocutor lateral — É como diz aquela mensagem que ouvimos domingo na igreja: é o pecado da injustiça social. Rico é tudo igual, meu irmão.

Espere aí, injustiça social uma ova. E assalto é o quê? De injustiça social eu entendo. E muito. Sou assistente social e sei o drama que muita gente passa, e tento ajudar profissional e pessoalmente. Mas 120 reais para passar uma graxa, faça-me o favor!

É pegar ou largar!

Eu largo. Aliás, vou largar aqui os sapatos, e vou pra casa de meia. Porque o que você está me cobrando é o preço de um sapato novo. É roubo, é roubo!

O que vou fazer com um sapato velho desses? Se ainda fosse novo, eu aceitava como parte do pagamento.

Parte do pagamento? Ladrão!

Além de ladrão, era abusado o tal engraxate de paletó e gravata. Dentro de mim, pensamentos desencontrados tentavam me orientar no sentido de uma decisão: pagava o absurdo que ele exigia e dava a encrenca por encerrada ou continuava aquela arenga, argumentando, tentando mostrar que o que ele pedia era uma ladroagem. Ele, entretanto, parecia irredutível e frio diante das minhas ponderações. E então, brigo ou não brigo? Pago ou não pago? A vida é cheia de decisões difíceis.

Vamos fazer o seguinte. Vou te pagar o que está pedindo, sim. Mas essa roubalheira será denunciada. Exijo um recibo, porque com ele vou à Delegacia, registro queixa, e procuro um repórter da TV pra denunciar. O senhor, com esse paletó mais parece um político que um cidadão comum. E, ao me roubar tão deslavadamente, só confirma que é político mesmo.

A esta altura, eu já estava cuspindo cobras e lagartos, com a pressão nas alturas. Tirei a carteira, prometendo que pagaria contra o recibo.

Cadê o recibo?

Foi quando ele riu e apontou numa direção, dizendo que aquilo era uma gravação para um quadro de câmera escondida, de um certo canal de TV. Olhei, dei um soco no ar, quando um rapaz com uma prancheta se aproximou sorrindo e pediu que eu assinasse, dando liberdade ao canal para usar a minha imagem. Respondi:

Para usar a minha imagem, vai ter que me pagar.

Quanto?

Mil reais.

O senhor aprendeu rápido.

Nem preciso dizer que o quadro nunca foi ao ar.

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