Homem que Falava Sozinho
(Conto de João Soares da Fonseca)
Não consegui decifrar o mistério de ver, pela primeira vez na vida, um homem falando sozinho.
Aquela visão me deixou intrigado. Minha mãe sentenciava que quem fala sozinho provavelmente é paciente psiquiátrico. Mas o homem para o qual eu estava olhando não me parecia pertencer a essa sofrida classe da humanidade.
O homem que falava sozinho ficava atrás de um balcão limpo e arrumado, usava terno preto, camisa branca e gravata borboleta da cor do terno. Parecia muito educado. Se bem conheço as loucuras humanas, o doente psiquiátrico costuma não cuidar de sua aparência, não pentear os cabelos… Aquele era diferente. Mesmo tendo eu somente seis ou sete anos, até hoje carrego a sua figura no bagageiro da memória. Se aquele homem estava doente, devia ser um doente diferente, estranho ao catálogo de minha mãe.
O homem que falava sozinho, além de parecer saudável e educado, sorria de vez em quando. Mas como não havia interlocutor visível, deduzo que sorria para si mesmo. E de vez em quando fazia pausas, umas breves, outras longas, mas sempre retornando ao espaço da palavra. Eu olhava para um lado e outro, tentando descobrir se havia alguém por ali com quem ele estivesse dialogando. E se o diagnóstico de minha mãe estava correto, ele estaria precisando mesmo trocar ideias com alguém. Talvez houvesse uma pessoa sentada atrás do balcão. Talvez com um movimento de cabeça eu conseguisse ver quem era. Estaria ele escondendo alguém? Estiquei bem o pescoço, nada. Ninguém por ali. Constatei que o homem estava mesmo só, e falava consigo.
De repente apareceu uma senhora. Ela penetrou no recinto e esperou que o homem que falava sozinho parasse de falar para que ela pudesse falar também. Ele parou, ela falou. Da distância a que eu estava, não me era possível decodificar a fala. Era sério? Era uma pergunta? Um pedido de conselho? Seria uma instrução? Nunca saberei.
O homem que falava sozinho voltou a falar sozinho quando a mulher se foi.
Depois de alguns minutos falando sozinho, apareceu um homem de terno também. Mas era um terno diferente. Da cor não me lembro. Mas parecia ser alguém de muita seriedade. Assim que ele se aproximou do balcão, o homem que falava sozinho parou novamente de falar sozinho para falar com o homem que estava diante de si. O homem de terno de alguma cor diferente perguntava, e o homem que falava sozinho respondia. Ficaram nisso alguns minutos, até que o homem foi embora também, e o homem que falava sozinho voltou a falar. Sozinho. Se era louco, deveria estar com muitos problemas.
Nunca esquecerei o homem que falava sozinho. Foi a primeira vez que vi um homem falando sozinho sem que as pessoas se aborrecessem ou se preocupassem com isso.
Foi dessa maneira que no centro de Vitória, no início da década de 60, eu vi um telefone pela primeira vez na vida. O atendente de um hotel que falava sozinho falava ao telefone. Hoje, vejo pessoas caminhando e falando sozinhas ao telefone, e não penso que estejam loucas. Ou será que estão?
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