O Preso Ingrato

(Conto de João Soares da Fonseca)


Como combinado, às 9h em ponto peguei o preso na prisão de Gatineau e fui levá-lo a Montbelo, no Québec, para visitar parentes.

Notei que ele estava nervoso, eu também, mas fiquei fingindo que éramos apenas dois cavalheiros educados que vão realizar um bom negócio:

Enfim, a primavera está chegando, você notou? — perguntei para… quebrar o gelo.

É, bróder, a neve está toda derretida. Dá pra eu ver da minha cela.

Tem muita gente na sua cela?

Somos quatro!

Só por curiosidade, o que vocês fazem com o tempo livre que têm? Às vezes, eu invejo vocês. Eu é que me sinto um prisioneiro da rotina em que a vida me enfiou. Com todo respeito pela sua situação, eu confesso que precisava ficar algum tempo preso para ter algum tempo livre!

Ah, a gente conversa, joga cartas, lê, mas, ô bróder, nem compare. É uma desgraça.

Havia uns quinze minutos que já estávamos rodando na bem-conservada autoestrada canadense. Quando de repente, ele alterou a voz, jogou fora aquele tom fraterno e passou a gritar como um senhor de escravos:

Encosta esta lata velha ali perto daquela placa.

Que meu carro é uma lata velha, não discuto. É lata, sim, e é velha. Mas ele podia ser um pouco menos ingrato. Afinal, aquela lata nos fazia o imenso favor de nos levar. E, com alguma sorte, nos trazer! Talvez.

Assustei-me com a brusca mudança de tom; enquanto eu freava, meu coração acelerava. E perguntei, já temendo o pior:

O que houve, bróder?

Nada, nada, sem perguntas. Você vai descer ali. E calar essa boca estúpida!

Que que houve?

Mas você é burro mesmo, hein, seu pgtykwkmsky?

Foi aí que vi que ele tinha a mão escondida por dentro do casaco, apontando na minha direção. Podia ser apenas o indicador estendido, mas para quem está sendo agredido, um indicador estendido pode ser fatal. Melhor não discutir mais e sair do radar dele.

Parei debaixo de gritos num francês que não consegui entender. Até ali a conversa deslizava em inglês de gente educada. Mas o animal que ele virou de repente mudou até de idioma.

Ok, ok, você manda, bróder!

E não me chama de bróder! — acho que foi isso que ele disse, misturando os idiomas.

Achei curioso isso, porque foi ele quem sempre se dirigiu a mim, chamando-me bróder.

Desci confuso, ele passou para a direção e saiu feito louco, queimando pneu. Vi minha lata velha desaparecer na distância.

Pelo menos não me levou junto — comemorei.

Mesmo com a chegada da primavera, o dia hoje amanheceu frio, dois graus negativos, mas com um vento que faz parecer menos dez. Felizmente ele me deixou descer do carro com os meus apetrechos antifrio.

Atravessei a rua, e comecei a fazer gestos à beira da estrada.

Uma velhinha bondosa parou e me deu carona.

Para onde está indo, meu filho? — perguntou-me num inglês bem maternal.

Para a cadeia, minha senhora.

Good heavens! — e deu uma risadinha nervosa como se dissesse Mas o que que eu fui arranjar! — Fiz um resumo da história para ela. Concordou em me deixar realmente à porta do presídio de Gatineau. Talvez porque fosse mais seguro para ela. E lamentando sempre:

Que desgraçado! Você vai ajudar e dá nisso…

Parei na portaria do presídio. O guarda Paradis me reconheceu.

O que houve?

E eu, branco, amarelo, sem graça:

Ele me mandou descer e fugiu com o carro. — Não me recordo bem, mas acho que eu gaguejava.

Lamento, padre, mas vamos ter que retê-lo aqui… mas será só por algumas horas.

Falou e girou na cadeira de rodinhas para usar o telefone. Não consegui entender o quê e com quem falou porque então…

eu acordei! Olhei o relógio, e estava mesmo na hora de ir buscar o preso em Gatineau.


Na verdade, na verdade vos digo o que de fato aconteceu: o preso dirigiu requerimento à direção solicitando autorização para essa saída. O requerimento foi negado. Mas ele esqueceu de me avisar. E lá estava eu às 9h em ponto, com um diácono canadense.


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