O Rei de Uma Palavra Só

 Era um dia de muito calor no Reino das Vacas Magras, onde havia um homem, que por acaso era o rei, que só sabia dizer uma palavra, Não. Se você perguntasse a ele: O senhor acha que vai chover? a resposta que ele daria é: Não. Então vai fazer sol? Não. E não adiantava tentar mostrar que ele estava sendo incoerente ou evasivo, porque ele diria: Não.

Uma criança chegou pra ele e perguntou:

Seu Rei, não há vacas gordas em nosso reino?

Adivinhe o que ele respondeu? — Não.

Um dia, um arauto perguntou:

Devo sair e anunciar o casamento do príncipe?

O rei respondeu: — Não.

Cansado de tanto ouvir Não, os súditos se reuniram em frente ao palácio. Elegeram uma delegação de sábios para falar com o rei.

Majestade, gostaríamos de falar-lhe em nome dos súditos. Podemos nos aproximar?

O rei respondeu: — Não.

Pararam onde estavam e aumentando o volume de voz, tornaram a falar, supondo que o rei não os houvesse entendido.

Podemos nos aproximar de Vossa Majestade?

E o rei respondeu: — Não.

Mesmo de onde estavam, disseram:

Estamos preocupados com o futuro do reino. O povo nos incumbiu de perguntar a vossa majestade: Haverá futuro para nós e nossos filhos?

Secamente o rei respondeu: — Não.

Os sábios se entreolharam inquietos e tentaram outra pergunta:

Podemos confiar nas palavras de Vossa Majestade?

Sem surpresa, o rei respondeu: — Não.

Eles se entreolharam de novo. Um deles disse a meia voz para o grupo de modo a que o rei não ouvisse:

Vocês não estão sabendo perguntar. Querem ver? — E gritou:

Alteza, por que selastes aliança com o Reino das Vacas Gordas e até hoje não recebemos ajuda nenhuma?

Um vasto silêncio se espalhou pelo palácio.

Um guarda postado à direita do grupo deu um passo à frente e resolveu entrar na conversa para tentar acender alguma luz:

Então vocês não sabem? Em que reino vocês se encontravam quando o arauto saiu a anunciar a doença do rei?

Os sábios voltaram suas cabeças na direção da voz, achando curioso que um guarda pudesse falar, pois geralmente eles parecem estátuas:

Doença? Que doença?

Logo se vê que os senhores ou não ouviram ou não deram importância. O rei foi diagnosticado com um mal chamado “amnésia verbal”, cujo sintoma principal é o esquecimento de todas as palavras com exceção de uma. É uma doença nova que, segundo dizem, está se espalhando pelo mundo. Reportaram-se casos, em outros reinos, em que uma pessoa só sabia dizer “Espere”. Outra só dizia “Quero”. Ouvimos de um rei que só dizia “Cale-se”. A outro só restou em seu vocabulário a palavra “Amanhã”. No caso do nosso rei, a palavra que sobrou é “Não”. Como os senhores têm a reputação de serem sábios, não vou dizer mais nada, a não ser o seguinte: O segredo do sucesso de uma conversa com o rei agora está no modo de se fazer a pergunta.

Dito isso, o guarda deu meia-volta e retornou à sua função estátua.

Os delegados se entreolharam novamente e disseram: Temos que formular as perguntas de modo a sabermos o que fazer, mesmo já sabendo que a resposta será Não.

Um delegado ensaiou um lamento: “Que doença infeliz!” Mas logo foi repreendido por outro sábio: “Pelo menos é a palavra Não e não como aquele outro que só diz ‘Cale-se’”.

Limparam a garganta para voltar a se dirigir ao rei:

Majestade, gostaríamos de falar-lhe mais de perto para não termos que ficar gritando como loucos. Há algum impedimento a que nos aproximemos de Vossa Majestade?

O rei respondeu: — Não.

Lentamente o grupo se aproximou.

Estamos sendo um obstáculo aos vossos planos?

Não.

Devemos dizer francamente ao povo que se preparem para a morte pois o reino está sem esperança?

Não.

Devemos divulgar que a ajuda prometida pelo Reino das Vacas Gordas só virá daqui a 50 luas novas?

Não.

Deixar o povo sem informação... é isto que devemos fazer?

Não.

Deixar as crianças sem escola... Vossa Majestade acha certo isso?

Não.

Continuaremos indiferentes à mortandade dos velhos, que estão perecendo sem hospitais?

Não.

Com uma respeitosa inclinação, os delegados foram embora, satisfeitos com os resultados da audiência.

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