Quando o Trem Parar

(Conto de João Soares da Fonseca)

A ditadura acabou, mas a tortura não. Só acabou quando saí do consultório do dentista. Que alívio me deu a percepção de que não havia brocas me esperando na rua!

Entrei no vagão do metrô, consultei o relógio do celular. Eram 13h35. Metrô vazio, o que terá havido? A cidade anda tão apinhada, que um vagão vazio pode não ser um bom sinal.

Sentei-me ao lado de uma jovem, cuja cabeça sonolenta pendia para o lado da janela. Não levou muito tempo, e vi que ela de todo se rendera à ditadura do sono.

Um jovem negro, alto e magro, entrou na Estação Botafogo-Coca Cola. Tinha os cabelos trabalhados em tranças típicas dos africanos. Trazia consigo grande objeto, redondo como uma bacia, duas bacias, uma cobrindo a outra. Era um estojo de plástico de dentro do qual retirou um instrumento musical diferente. Sentou numa banqueta que armou às pressas, e, batendo com as mãos como se aquela bacia fosse um tambor, começou a tirar dali sons de uma música cuja melodia não logrei identificar.

O som era alto para quem estava a pouco mais de um metro de distância dele. Mesmo assim, a moça ao meu lado continuava dormindo.

O rapaz tocou uma música, duas, três, que me soaram iguais. Depois da última, se levantou e fez um breve discurso. Explicou que executara um instrumento, que se chamava headpan. E traduziu: Head quer dizer cabeça, em inglês, e pan, panela. Se entendi direito, era ideal para quem pratica ioga. O rapaz disse mais algumas coisas, enfiou a viola no saco, digo, o headpan no estojo, recolheu umas moedas e notas misericordiosas e desceu na Cinelândia.

Tudo isso acontecendo, e a moça ali, alheia, dormindo! Quanta coisa se perde ao dormir! É como estar morto para o mundo.

O trem continuou sua sina monótona e arrastada. Até que chegamos à estação final.

O alto-falante anunciou o fim da linha. Era pra desembarcar. Todo mundo. Mas a moça continuava dormindo. Fui dos últimos a levantar. Olhei para a moça novamente e... nada! Resolvi então fazer algo que, confesso, não é do meu feitio: me meter onde não sou chamado. Afinal, a moça deveria ter descido em alguma estação anterior ou desceria nesta? Só perguntando:

Moça, moça!

Acho que minha voz fez que o sono dela se aprofundasse ainda mais. Nem se mexeu:

Moça, moça! É a estação final!

Nenhum sinal de vida.

Além de me meter onde não fui chamado, resolvi fazer algo mais em benefício da pobre e cansada desconhecida. Toquei de leve no braço dela:

Moça, acabou!

Levei o maior susto: a moça caiu pra frente, como uma estátua que despenca de seu pedestal.

Saí do vagão vazio e corri atônito a chamar alguém.

Depressa! Tem uma moça passando mal aqui.

Diante do meu desespero, um casal de seguranças veio na minha direção. Contei tudo o que se passara até ali. A mulher segurança abaixou-se, tomou o pulso da moça, olhou para nós dois ali, de pé, meneou a cabeça como quem diz: Acabou.

Os dois anotaram o meu contato para qualquer esclarecimento posterior que necessitassem, e fui pra casa. Alternando mecanicamente os passos, caminhei pensando na vida, no milagre da vida, na morte, na surpresa da morte, na juventude, na juventude daquela moça cansada. Tentei imaginar os parentes dela recebendo o jato gélido dessa notícia e se assustando também. Preciso prestar mais atenção às pessoas à minha volta! 

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