Reunião de Condomínio
(Conto de João Soares da Fonseca)
O síndico do prédio afixou no elevador a convocação: reunião nesta sexta-feira às 20h. Que ninguém faltasse, decisões importantes seriam tomadas.
Quando chegou o dia e deu a hora de se iniciar a reunião foi que os condôminos começaram a chegar.
Meia hora depois, o presidente Boca, sempre falastrão, instalou a assembleia conforme o Estatuto e expôs o assunto mais importante:
— Corpo, queríamos ouvir vocês, porque temos um problema: o Coração se apaixonou.
— Uhuuuu, gritaram todos.
O Pé Esquerdo pediu a palavra:
— Mas quem foi que disse que isso é problema?
— Ué, você não ouviu o que Boca acabou de dizer? — respondeu Braço Direito.
Pé Esquerdo, já querendo dar chutes, justificou-se:
— Tem gente que é lerdo pra entender… Cérebro, ajude esse ente limitado aí a entender que fiz uma pergunta retórica. Foi um modo de dizer que se apaixonar não é problema. É que nem dinheiro.
— É comigo. Falou em dinheiro mexeu comigo — entrou Mão no assunto, já acendendo o isqueiro porque vivia repetindo que queria ver o circo pegar fogo.
— Calma aí, Mão. Apaga esse fogo.
— Ordem, ordem — esgoelava-se Boca atrás da mesa de presidente. — Não fujamos do assunto. Que tal ouvirmos o Coração? Ele pode nos contar o que houve.
— Ih, ouvir o Coração!!! Sei não! Esta reunião vai varar a madrugada, estou avisando — disse Nariz, sempre escorrendo mau humor.
— É, vamos ouvir o Coração!
— Mas seja objetivo — sentenciou Cérebro.
De posse do microfone, Coração perguntou:
— O que é ser objetivo, caro Cérebro?
— É falar o essencial, sem encher o saco!
Uma voz abafada gritou lá atrás:
— Estou quieto aqui no meu esconderijo. Por favor, me deixem sossegado!
Enquanto Boca insistia em pedir ordem no recinto, Orelha se levantou para dizer:
— Eu quero ouvir a história, dá licença! Fala, Coração!
Boca ameaçou encerrar a reunião se não houvesse ordem:
— Silêncio! Vamos ouvir o Coração. Mas, Coração, não enrola, veja se você consegue ir direto ao ponto. Faça este esforço, por obséquio.
Coração limpou a Garganta, e esta lhe agradeceu a higiene. Com um lenço nas mãos para o atendimento de qualquer emergência, Coração se pôs a falar:
— Aconteceu simplesmente, pessoal. Não sei explicar. Quem saberia é o Cérebro, minha área é outra. Quando meus olhos pousaram nela foi que vi que a beleza em sua forma absoluta existe realmente. Minhas mãos suavam, as pernas tremiam, a boca ficou seca, o cérebro ficou confuso, e um fogo acendeu-se dentro de mim…
Pé Esquerdo interrompeu de novo:
— Eu não disse que isso era solução? Olha aí, todo mundo se envolve quando o assunto é paixão. Aliás, não vejo razão para esta reunião! Muito bom, Coração! Gostei da tua franqueza! E mais ainda, da tua objetividade. Sem rodeio e rodamoinho, falou tudo em poucas palavras. Diante disso, senhor presidente, proponho o encerramento da reunião.
Todos estavam agitados e agora concordavam com Pé. O presidente Boca, aproveitando a proposta, encerrou a reunião, suspirando:
— Quem dera que toda reunião fosse assim!
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