Tudo Culpa da Januza

(Conto de João Soares da Fonseca)

Parte do trabalho de Péricles Pereira em Cabo Frio onde morava era fazer viagens esporádicas ao Rio de Janeiro. Ia ao escritório de São Cristóvão, resolvia as pendências que o chefe lhe confiava e retornava, quase sempre no mesmo dia. Como gostava de dizer, ia num pé e voltava no outro. Quando era necessário pernoitar na Cidade Maravilhosa, o maravilhoso funcionário não reclamava de dormir nas instalações que o próprio escritório adaptara para esse fim. Eram modestas, admitia, uma quitinete simples, mas suprida do básico, inclusive ar condicionado. Mesmo assim, Péricles Pereira fazia tudo ao seu alcance para tentar voltar no mesmo dia para o seu refúgio, onde era conhecido não tanto pelo nome como pelo apelido: Pepê do Peró.

Péricles Pereira gostava do nome que o pai, admirador da cultura helênica, escolhera. Mas para os vizinhos e os amigos, ele era simplesmente o Pepê do Peró. Ele não se lembrava de quem o teria primeiramente chamado por esse apelido. Mas também não havia por que se preocupar com algo inofensivo.

Casado com Januza por mais de três décadas, considerava-se um homem feliz, que construíra uma família de respeito. Os filhos, Juliana e Júlio, viviam para a família, para os estudos e para a igreja.

O universo de Péricles Pereira parecia estar assim muito bem organizado até o dia em que Januza o abordou, depois do almoço. Fazia dias que ela tentava encaixar essa conversa, mas sempre havia algum impedimento de última hora. Mas nessa tarde, os meninos estavam fora, e Januza entendeu ser o momento ideal para conversar com o marido.

Como se escolhesse as palavras a dedo, disse ela a ele, em resumo, que ele não contasse mais com ela para a satisfação de sua intimidade. E, sem que houvesse planejado isso, começou a chorar. Disse que o amava, a ele somente, jurou que não havia outro homem em sua vida - nunca houve -, não era nada disso, era apenas uma questão de saúde, uma travessura hormonal. Sentia que a libido se fora com a juventude. Confessou que no princípio, quando se deu conta disso, ainda tentou contornar, foi à médica de sua confiança, tomou os remédios receitados, mas nada de o desejo retornar. Antes que ele pensasse qualquer bobagem, Januza fez questão de dizer que o sumiço da libido não era culpa dele. A sensação de indiferença para com o encontro sexual abarcava todos os exemplares do gênero masculino, e não a ele somente. Podia até ver aquele galã das novelas, e continuar gelada.

Péricles Pereira não pôde dizer nada, como se as palavras tivessem sido lipoaspiradas de seu léxico. Vendo a mulher em lágrimas e com a voz embargada, nem se animava a argumentar. Ele sabia que Januza era sincera, sempre fora uma companheira transparente, fiel a toda prova. Acreditava nela. Mas se essa comunicação resolvia o lado dela, que faria ele agora? Afinal, a formação religiosa que trazia desde a adolescência não recomendava que ele se aventurasse por aí. Poderia até fazê-lo, era livre para isso, mas depois teria que encarar a miséria da culpa.

Os meses se arrastavam, e Pepê do Peró, supondo que Januza perdeu o interesse nele por causa de seu comportamento, adotou uma nova tática: tentaria seduzir a mulher. Escovaria os dentes, como sempre fez, mas agora com mais regularidade e ruído, pentearia os cabelos com frequência, compraria roupas novas, cuecas novas... Procurou uma academia. Ah, sim, desenvolver a musculatura era fundamental. Resolveu também que seria um marido melhor. Sempre escutara palestras sobre ser um marido parceiro, e sentia que era chegada a hora de ser um. Passou a tirar os pratos da mesa, lavar a louça, colocar a roupa na máquina... Nada. Januza parecia afundar cada vez mais no pântano da indiferença.

Pepê do Peró dava murros na ponta de faca da sua crise pessoal, quando o chefe lhe deu a tarefa de ir ao Rio resolver pendências no escritório lá. Dessa vez, porém, a agenda era mais longa, e não seria possível ir e voltar no mesmo dia. Teria que pernoitar na quitinete de São Cristóvão. Pepê fez a viagem, trabalhou toda aquela quarta-feira e certamente só terminaria as tarefas no final da manhã do dia seguinte.

Na noite daquela quarta, entrou no carro e foi dar uma volta no entorno da Quinta da Boa Vista. Tinha ouvido falar que era uma área “onde tudo pode acontecer”. Com a velocidade reduzida, deu uma primeira volta no que alguém chamara de “quarteirão do pecado”, viu muitas “ofertas”, mas a estética das ofertas não o atraía muito. Ali estavam garotas maltratadas pela vida, travestis minimamente vestidos, com perucas de quinta categoria… um cenário que, em princípio, não o deixou animado. Faria uma segunda volta? Fez.

Ah, aquela ali não é de se jogar fora”, disse consigo. Parou o carro, abaixou o vidro do carona enquanto uma moça de triste semblante se aproximava. Pepê perguntou:

Como é o lance aqui, querida?

A moça triste respondeu sem convicção:

Duzentos, local por sua conta.

Que isso? Meu dinheiro não é fabricado em casa não. Cem tá bom.

A moça triste fez um muxoxo, aceitou e entrou no carro.

Péricles Pereira estava nervoso com a presença da moça triste, de shortinho de jeans surrado, miniblusa cor-de-rosa, deixando uns seios desproporcionalmente grandes praticamente à mostra.

Como é o seu nome?

A moça falou tão baixo que ele quase não ouviu: — Januza.

O quê? — berrou Pepê como se levasse uma estocada na costela, — você disse ‛Januza’? Que é isso, está de gozação comigo? Era só isso que me faltava!

A moça, sem entender a razão de tanta explosão e julgando tratar-se de desprezo da parte daquele macho insensível, não perguntou nada, não disse nada, e ficou ali, como que envergonhada. Precisava do dinheiro, então era melhor ficar em silêncio.

Passada a explosão, resolveu perguntar: — E então, Dona Januza, está trabalhando nisso há muito tempo?

De um ano pra cá, — respondeu a moça triste, agora com o rosto voltado para fora, como alguém que tem nojo a tudo o que está acontecendo à sua volta.

Por que se meteu nisso?

Olha aqui, — explodiu a moça, voltando bruscamente o rosto para o motorista, — se o senhor é da polícia, me faça um favor, me leva logo presa, mas sem fazer pergunta, pode ser?

Pepê sorriu de leve, percebendo que tocou a superfície de um nervo sensível:

Calma, querida! Só estou tentando ser educado! ajuda aí: pra onde é que o pessoal daqui vai quando quer amar?

A moça triste resolveu conversar:

O senhor também não é daqui? É de onde?

Pepê não quis revelar dados de sua vida, então desconversou: — Sou de Minas. Mas quero lhe conhecer.

Não precisa me conhecer! Eu te atendo, você me paga, e quando tudo acabar, cada um volta para o seu canto, como se nada tivesse acontecido. Combinado? — E tornou a fixar o olhar em algum objeto invisível lá fora.

Um tempo de silêncio incômodo escorreu entre eles:

Você é do Rio mesmo? — atreveu-se Pepê a perguntar.

Não. — Mas também não disse de onde era. E voltou a se fechar.

Pepê, que reconhecidamente não possuía o dom de puxar conversa, resolveu também se fechar no seu mundo, embora admitisse que precisaria conhecer a pessoa com quem estava para ter tanta intimidade.

Não conheço nada por aqui. Me diga como eu chego ao local mais próximo.

Segue reto, — gemeu Januza. — Quando chegar mais perto, eu aviso. — Novo silêncio.

Chegaram.

Entraram.

Mas o tipo de silêncio que prevaleceu entre eles era mais duro e frio que qualquer placa de gelo. A Pepê faltava a picareta que pudesse abrir caminho naquele mar congelado.

Sentou na cama sem saber exatamente o que fazer. Não conhecia outra mulher que não fosse Januza, a sua. Januza, a outra, também não parecia apreciar a vida que escolheu.

Vai ficar me olhando aí? — A pergunta não guardava nenhuma semelhança com uma expressão de desejo. Também passava longe de ser um convite.

Me… me fala um pouco da sua vida, — propôs ele. — Amar assim, sem conversar, sem conhecer… acho que não é pra mim.

Devia ter pensado nisso antes. Está me fazendo perder tempo e dinheiro.

Dinheiro não, porque eu vou te pagar. Mas, me fala, por que você entrou nesta vida?

Que negócio é esse de “nesta vida”? Parece até que eu estou cometendo algum crime.

Perdão, não foi nesse sentido. Eu quis dizer “nesta profissão”.

Como quem leva um choque, ela o encarou como se fosse um animal raro que tivesse entrado no ambiente. Pepê viu aquele olhar, se olhou, e perguntou: — O que houve?

Você disse ‛Perdão’? Nunca ninguém me pediu perdão. — E passou a olhá-lo como alguém que merecesse um pouco mais de atenção. — A vida não é fácil, Seu José. Só Deus sabe como estou viva ainda. — E sentando-se no outro lado da cama, Januza decidiu abrir algumas páginas do livro triste de sua vida a esse estranho, que além de ser, agia de modo estranho, e ver no que ia dar.

Sou de Sergipe, mas detesto esta cidade.

Mas o mundo inteiro vem de todo lado conhecer esta cidade, e você não gosta dela?

As pessoas vêm passear; eu vim na marra.

Como, na marra?

Eu tenho 20 anos. Vinte anos de miséria. Vinte anos de tristeza. Nasci quando minha mãe tinha 14. O namorado – meu pai – sumiu no mundo depois que soube que eu havia entrado na fila pra nascer. Nunca vi meu pai. Nem o nome eu sei. E, para ser franca, não tenho o menor interesse em conhecer um vagabundo como ele. Os homens são todos uns vagabundos. Não se salva um. Aposto que o senhor também é um vagabundo. Se não fosse, não estaria aqui.

Péricles Pereira murchou ainda mais.

Aí ela conheceu o dono da região. Era um moleque que vivia de moto pra cima e pra baixo. Um calor desgraçado, mas ele não tirava o casaco de imitação de couro. Convidou ela para conhecer a emoção de andar de moto, ela foi. E depois foram morar juntos. Ela me pegou na casa de minha avó, e me levou pra morar com eles quando eu tinha quase três anos. Disse que ele concordou, e que me trataria como se fosse filha. E aí sim que a minha vida infernizou de vez. Desde que me lembro, a lembrança é sempre a mesma: ele abusando de mim. Era minha mãe sair para trabalhar, e o monstro se aproximava com um riso diabólico… umas carícias dolorosas. Eu só fazia chorar. Que mais podia fazer? É melhor lidar com cachorro. Dizem que o gato é traiçoeiro, mas como o bicho homem, bicho macho homem, nunca vi. Tenho nojo de todos os homens. Olha, seu moço, eu por mim castrava esses homens todos!

Péricles Pereira não ousou se mexer na cama. Januza percebia a retração do cliente e atacou mais ainda:

O senhor já almoçou hoje, não é? Pois eu não! Comi só um ovo cozido com feijão com farinha. Tem dia que meu almoço não é nem isso, só uma banana! Talvez por isso é que meu estômago dói de vez em quando, de modo que eu não consigo nem respirar direito.

Você já foi a um médico?

Januza explodiu numa gargalhada que fez Pepê se arrepender de ter perguntado.

O senhor é ingênuo mesmo, hein?! Se eu não tenho dinheiro nem pra comer, como é que vou a médico? Só se o senhor pagar a consulta e os remédios pra mim, paga?

Pago!

Paga nada! Conheço o seu tipo! Homem é tudo vagabundo igual. Bem que minha avó dizia: “Quer viver feliz, minha filha? Fique longe do bicho homem”.

Estou dizendo que pago. Você não me conhece. Sou um homem de palavra. Mas espere aí, você deve estar com fome, se só comeu hoje isso que me disse. — Dizendo isso, Pepê foi ao interfone e pediu um cardápio. Leu as opções para Januza, que nem sabia o que escolher.

Eu gosto de frango, vovó sabia preparar um — confessou ela.

Eu também, e olha que coincide que eu estou com fome. Mas vou pedir outra coisa para mim.

Pepê pediu comida: um frango com fritas pra ela, um bife acebolado pra ele. Jantaram, entraram no carro e foram embora.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crônicas de João Soares da Fonseca

O Copo e o Litro

Evolução do Cristianismo