O Faz de Conta dos Generais
A polícia do pensamento municipal proibiu os historiadores de incluírem em seus registros a guerra que houve certa vez em nossa cidade e que passou à história, oral apenas, como a Guerra da Prefeitura. Nas escolas, os professores também omitiam este tópico. O argumento deles era que seria bom evitar quaisquer referências a selvajaria.
Os dois exércitos inimigos pareciam prontos para a pugna. Seguindo a multissecular sabedoria latina, por muito quererem a paz, prepararam-se muito para a guerra. De um lado, o prefeito Tasmânio Neto apostava todas as suas fichas na campanha para se reeleger. Do outro lado, o desafiante, o advogado Santo Barbosa dobrava as apostas para entrar. Os comícios eram, no princípio, apenas ruidosos. Mas o volume do ruído foi subindo e fugindo ao controle da sensatez, tornando-se cada vez mais violento. O clima se aproximava perigosamente de uma conflagração. Ataques verbais ameaçavam descer para o campo minado de tapas e pescoções, para não falar de pólvora.
Naquela guerra não pude evitar: tomei partido. Até comprei o uniforme dos barbosinos, não só porque era muito mais elegante que o dos netistas, mas também era de melhor qualidade. Vesti-me, peguei as armas e fui à luta. Não direi que convivíamos com armamento pesado, primeiro porque ninguém de nós fazia ideia do que era armamento pesado de verdade. Só conhecíamos a expressão ao ler nos jornais que a bandidagem nas grandes capitais ousava enfrentar a polícia com armas cada vez mais poderosas. Segundo, porque não havia recursos para coisa de muito peso. A direção dos barbosinos nos enviava constantes memorandos reiterando que o orçamento era estreito.
Além de todo o inferno que os netistas criavam, havia ainda uma batalha verbal em que se entrechocavam mentiras e desmentidos, versões e perversões narrativas, um toma-lá-dá-cá de desencontros e divergências de todo tipo.
Toda semana, os netistas tentavam até mesmo fisicamente perturbar a paz dos comícios barbosinos. Ficavam na periferia com tambores, buzinas e apitos, e gritavam que Barbosa era a cara e o caráter da corrupção, como se Tasmânio Neto estivesse na fila da canonização.
Com o clima de confronto cada vez mais aquecido, não se podia sequer dormir sossegado. Roubavam cavaletes, galhardetes, arrancavam cartazes dos postes, um horror. Para ser sincero, considero um milagre que não tenha havido morte naquela campanha. Jamais tive um elenco tão grande de inimigos.
Até que um dia, caminhando do trabalho para casa, passei em frente a um restaurante, espichei os olhos lá para dentro, que é um traço curioso dos matutos, e, estarrecido, vi os dois generais, que o povo via como inimigos. Os dois cabeças da crise confabulavam agradavelmente. Em princípio, não consegui acreditar no que meus olhos viam:
— Como é possível? As pessoas se esganando por causa deles, e eles ali, rindo enquanto tomam cerveja! Como é possível que em seus discursos inflamados chamem um ao outro de bandido, ladrão, corrupto, desrespeitem a mãe do outro, provoquem o nosso senso de heroísmo… Achei aquilo uma traição, uma blasfêmia, como quem diz ao povo: “Vocês são uns trouxas”.
Cheguei a casa, peguei o uniforme dos barbosinos e fiz com ele uma fogueira no quintal. Foi a forma de demonstrar minha desilusão com a filosofia barbosina. É horrível reconhecer que se embarcou num Titanic ideológico! Bem que meu irmão mais velho tentou me impedir, achando aquilo um desperdício de recursos.
— Eu te avisei — disse-me ele. — Eu te disse que era uma grande tolice brigar com amigos e inimigos por causa dessa corja.
— Mas o discurso de Barbosa era tão convincente! — retruquei. — Para mim ele era a encarnação da esperança da política local, com possibilidade de vir a ser solução também para a nacional. Quem sabe até poderia ocupar espaço na ONU, no mundo, pois transpirava honestidade e competência! Quero morrer!
— Bobagem, você briga aqui embaixo por eles, mas eles se associam lá em cima para conseguir vantagens para o bolso de cada um e a bolsa de suas mulheres. Sem essa de permitir que amizades históricas se despedacem e se desintegrem por causa desse circo sem graça chamado “política nacional”, porque os atores são péssimos no desempenho de seus papéis. A hipocrisia é seu uniforme desbotado, gasto pelo uso. Guarde suas energias para causas e coisas que valham a pena!
Comentários
Postar um comentário