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Mostrando postagens de fevereiro, 2024

O Copo e o Litro

(Conto de João Soares da Fonseca) Os dois eram de vidro, o copo e o litro. De repente, como num ataque de insensatez, começaram a bater boca. O litro, olhando de cima pra baixo, humilhava o copo: “Você é pequeno, copinho sem graça! Não cabe muita coisa em você. Mal colocam água em você, e você já está transbordando. Além disso, olhe o formato que você tem. Coisa mais sem graça. Agora, olhe para mim, bonito, esbelto, alto, atraente. Meu gargalo parece mais o pescoço de uma bela criatura humana, uma mulher elegante. Tenho o perfil de uma modelo. Morra de inveja, nanico. Sabia que quem nasceu para ser copo nunca chegará a litro?” O pobre do copo, tentando olhar o litro de igual para igual, gagueja a sua tentativa de resposta: “Como assim? Você está querendo me humilhar? Eu estou aqui, quieto no meu canto, e você, a troco de nada, vem perturbar a minha paz! Por que esse ódio gratuito? Que te fiz eu? E você está esquecendo que viemos do barro!”. “ Que agredir o quê, rapazinho? A verdade dó...

A Loucura de Zenaide

(Conto de João Soares da Fonseca) Zenaide era louca, mas ninguém sabia. Vivia rindo por todos os poros, por todos os motivos e para todo mundo, como se fosse garota-propaganda de pasta de dente. Sempre de bem com a vida, de bem comigo, seu marido desde que ela fez 21 anos, e eu 22. Zenaide era um caso em que a doença não atrapalhava a vida, não perturbava o casamento, não infernizava a criação de nossos filhos, não dava prejuízo… Zenaide era uma santa. Uma vez, brigamos. Ela chegou em casa com uma porção de salgadinhos na bolsa. Havia entrado numa festa, comido e bebido, e ainda por cima, trouxe coisas pra casa. — Era festa de quê? De quem? — Como eu vou saber? — Como você conseguiu entrar assim na festa, sem conhecer ninguém? — Do mesmo modo que entraria numa festa em que todo mundo me conhecesse: entrando, cumprimentando todo mundo, sorrindo e comendo as coisas. — Você é louca. Era festa de quê? — Não faço a menor ideia. — Não estou dizendo que você é louca? — S...

Amor se Leva na Bolsa

(Conto de João Soares da Fonseca) Reencontrar Helena me mostrou que a vida tem futuro na terra, embora não haja justiça debaixo do sol, porque o tempo não passa pra ela. Desde a conclusão da Filosofia que não nos víamos. E ela continua a mesma de duas décadas atrás. O rosto belo e o perfil de atleta se casaram nela e tanto deslumbram agora como deslumbravam há vinte anos. O reencontro se deu após um culto na igreja. Era noite, e eu perguntei, depois do abraço: — É aí, me fala. Continua em Portugal? — Sim, Lisboa. Como lá dizem, “Quem não viu Lisboa não viu coisa boa”. — Voltou de vez? — Nada. Só vim ver a família e comemorar os 90 anos de mamãe. — Como está a vida do outro lado do Atlântico? — Muito boa. Não troco Portugal por nada. Quando o euro fincou ali sua bandeira, a vida só fez melhorar. Morro por lá, pode crer. — Creio. Helena falava com uma confiança que, se existia durante os anos da Filosofia, eu não percebia. — Casou? — Que nada! Amo minha liberdade. ...

Conto de Geremária

(Conto de João Soares da Fonseca) Trazida do norte da Bahia para trabalhar em casa de paulistano bem de vida, Geremária mal conseguia assinar o nome. Morria de vergonha por isso, sim, mas se intimidava ainda mais quando tinha que dizer seu nome a alguém. Rodeada de paulistanas saradas e vistosas chamadas Patrícias, Danielas, Fernandas, Luízas, Letícias, Lauras, Sandras, Stelas e Rosanas, Geremária se encolhia toda, por dentro e por fora, quando lhe solicitavam o nome. Um dia, perguntou à patroa se era possível mudar de nome. — Mas por que isso, Geremária? Você não gosta do seu nome? — Odeio, dona Júlia, odeio. E a senhora por favor me diga com toda sinceridade: já viu alguma outra Geremária nesta vida? — Com toda sinceridade, sinceridade, não. Mas que importa isso, minha filha? É a vida da gente que vai fazer a diferença. Dependendo de como se vive, o nome será uma glória ou uma vergonha. — O meu já é uma vergonha. — Que nada, — desconversava D. Júlia. — Você não vê por ...

Quando o Trem Parar

(Conto de João Soares da Fonseca) A ditadura acabou, mas a tortura não. Só acabou quando saí do consultório do dentista. Que alívio me deu a percepção de que não havia brocas me esperando na rua! Entrei no vagão do metrô, consultei o relógio do celular. Eram 13h35. Metrô vazio, o que terá havido? A cidade anda tão apinhada, que um vagão vazio pode não ser um bom sinal. Sentei-me ao lado de uma jovem, cuja cabeça sonolenta pendia para o lado da janela. Não levou muito tempo, e vi que ela de todo se rendera à ditadura do sono. Um jovem negro, alto e magro, entrou na Estação Botafogo-Coca Cola. Tinha os cabelos trabalhados em tranças típicas dos africanos. Trazia consigo grande objeto, redondo como uma bacia, duas bacias, uma cobrindo a outra. Era um estojo de plástico de dentro do qual retirou um instrumento musical diferente. Sentou numa banqueta que armou às pressas, e, batendo com as mãos como se aquela bacia fosse um tambor, começou a tirar dali sons de uma música cuja melodi...

O Engraxate

(Conto de João Soares da Fonseca) Fazia tempo que eu não engraxava os sapatos. O conforto de só andar de tênis me afastou dos profissionais descontraídos, que são os engraxates, tão encontradiços em outras eras. Ao ver aquele senhor de paletó e gravata, bem-humorado, anunciando promoção, olhei pra baixo e vi que o pisante precisava de um capricho. Como quem é atraído a fazer um grande negócio, subi os dois ou três degraus e sentei-me no trono dos fregueses do senhor de paletó e gravata, achando graça que ele se vestia de um modo tão formal para fazer um trabalho tão braçal. Não que eu tenha qualquer preconceito contra o paletó e a gravata ou contra a profissão de engraxate, mas é que não é comum ver os dois entes se interrelacionando. Cauteloso, pôs as proteções laterais e tocou a dar tinta, cera e esfregação. Ele trabalhava e conversava com alguém do lado. Não é do meu feitio ficar escutando conversa dos outros, lição que aprendi na infância, ou com meus pais ou na escola, não m...

Reunião de Condomínio

(Conto de João Soares da Fonseca) O síndico do prédio afixou no elevador a convocação: reunião nesta sexta-feira às 20h. Que ninguém faltasse, decisões importantes seriam tomadas. Quando chegou o dia e deu a hora de se iniciar a reunião foi que os condôminos começaram a chegar. Meia hora depois, o presidente Boca, sempre falastrão, instalou a assembleia conforme o Estatuto e expôs o assunto mais importante: — Corpo, queríamos ouvir vocês, porque temos um problema: o Coração se apaixonou. — Uhuuuu, gritaram todos. O Pé Esquerdo pediu a palavra: — Mas quem foi que disse que isso é problema? — Ué, você não ouviu o que Boca acabou de dizer? — respondeu Braço Direito. Pé Esquerdo, já querendo dar chutes, justificou-se: — Tem gente que é lerdo pra entender… Cérebro, ajude esse ente limitado aí a entender que fiz uma pergunta retórica. Foi um modo de dizer que se apaixonar não é problema. É que nem dinheiro. — É comigo. Falou em dinheiro mexeu comigo — entrou Mão no ass...

O Rei de Uma Palavra Só

  Era um dia de muito calor no Reino das Vacas Magras, onde havia um homem, que por acaso era o rei, que só sabia dizer uma palavra, Não. Se você perguntasse a ele: O senhor acha que vai chover? a resposta que ele daria é: Não. Então vai fazer sol? Não. E não adiantava tentar mostrar que ele estava sendo incoerente ou evasivo, porque ele diria: Não. Uma criança chegou pra ele e perguntou: — Seu Rei, não há vacas gordas em nosso reino? Adivinhe o que ele respondeu? — Não. Um dia, um arauto perguntou: — Devo sair e anunciar o casamento do príncipe? O rei respondeu: — Não. Cansado de tanto ouvir Não, os súditos se reuniram em frente ao palácio. Elegeram uma delegação de sábios para falar com o rei. — Majestade, gostaríamos de falar-lhe em nome dos súditos. Podemos nos aproximar? O rei respondeu: — Não. Pararam onde estavam e aumentando o volume de voz, tornaram a falar, supondo que o rei não os houvesse entendido. — Podemos nos aproximar de Vossa Majestade? E...

Homem que Falava Sozinho

(Conto de João Soares da Fonseca) Não consegui decifrar o mistério de ver, pela primeira vez na vida, um homem falando sozinho. Aquela visão me deixou intrigado. Minha mãe sentenciava que quem fala sozinho provavelmente é paciente psiquiátrico. Mas o homem para o qual eu estava olhando não me parecia pertencer a essa sofrida classe da humanidade. O homem que falava sozinho ficava atrás de um balcão limpo e arrumado, usava terno preto, camisa branca e gravata borboleta da cor do terno. Parecia muito educado. Se bem conheço as loucuras humanas, o doente psiquiátrico costuma não cuidar de sua aparência, não pentear os cabelos… Aquele era diferente. Mesmo tendo eu somente seis ou sete anos, até hoje carrego a sua figura no bagageiro da memória. Se aquele homem estava doente, devia ser um doente diferente, estranho ao catálogo de minha mãe. O homem que falava sozinho, além de parecer saudável e educado, sorria de vez em quando. Mas como não havia interlocutor visível, deduzo que sorri...

O Preso Ingrato

(Conto de João Soares da Fonseca) Como combinado, às 9h em ponto peguei o preso na prisão de Gatineau e fui levá-lo a Montbelo, no Québec, para visitar parentes. Notei que ele estava nervoso, eu também, mas fiquei fingindo que éramos apenas dois cavalheiros educados que vão realizar um bom negócio: — Enfim, a primavera está chegando, você notou? — perguntei para… quebrar o gelo. — É, bróder , a neve está toda derretida. Dá pra eu ver da minha cela. — Tem muita gente na sua cela? — Somos quatro! — Só por curiosidade, o que vocês fazem com o tempo livre que têm? Às vezes, eu invejo vocês. Eu é que me sinto um prisioneiro da rotina em que a vida me enfiou. Com todo respeito pela sua situação, eu confesso que precisava ficar algum tempo preso para ter algum tempo livre! — Ah, a gente conversa, joga cartas, lê, mas, ô bróder, nem compare. É uma desgraça. Havia uns quinze minutos que já estávamos rodando na bem-conservada autoestrada canadense. Quando de repente, ele alterou ...

Tudo Culpa da Januza

(Conto de João Soares da Fonseca) Parte do trabalho de Péricles Pereira em Cabo Frio onde morava era fazer viagens esporádicas ao Rio de Janeiro. Ia ao escritório de São Cristóvão, resolvia as pendências que o chefe lhe confiava e retornava, quase sempre no mesmo dia. Como gostava de dizer, ia num pé e voltava no outro. Quando era necessário pernoitar na Cidade Maravilhosa, o maravilhoso funcionário não reclamava de dormir nas instalações que o próprio escritório adaptara para esse fim. Eram modestas, admitia, uma quitinete simples, mas suprida do básico, inclusive ar condicionado. Mesmo assim, Péricles Pereira fazia tudo ao seu alcance para tentar voltar no mesmo dia para o seu refúgio, onde era conhecido não tanto pelo nome como pelo apelido: Pepê do Peró. Péricles Pereira gostava do nome que o pai, admirador da cultura helênica, escolhera. Mas para os vizinhos e os amigos, ele era simplesmente o Pepê do Peró. Ele não se lembrava de quem o teria primeiramente chamado por esse apeli...